Considerada pelo Ministério da Educação (MEC) como instrumento eficaz no combate à repetência e na melhoria da aprendizagem, a divisão do ensino fundamental (antigo 1.º grau) em ciclos de dois ou mais anos, em vez de séries anuais, provoca controvérsia no País. Enquanto São Paulo está convencido a manter a nova organização em toda a sua rede, o governo de Minas quer voltar atrás e, na Bahia, já se pensa em reavaliar o sistema.
De acordo com levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao ministério, pelo menos 16 Estados adotam os ciclos, ainda que 14 deles parcialmente. Mas é em Minas, onde os ciclos abrangem toda a rede estadual e o desempenho dos alunos deu ao Estado o primeiro lugar numa avaliação nacional, que a Secretaria da Educação quer voltar à seriação.
A decisão foi anunciada há duas semanas pelo novo secretário, o ex-ministro da Educação Murílio Hingel. Na opinião de Hingel, que esteve à frente do MEC entre 92 e 94, as estatísticas do sistema de ciclos - em que o aluno não é aprovado ou reprovado a cada ano e sim no fim do período - estão longe de refletir a realidade.
Com a atitude de Hingel, São Paulo passa a ser o único Estado do País a estruturar em ciclos, sem ressalvas, toda a rede de ensino.
‘‘Acho lamentável e precipitado acabar com os ciclos sem uma avaliação’’, critica a presidente do Inep, Maria Helena de Castro. Para ela, a repetência tem um componente perverso, que é o de afetar a auto-estima do estudante e ampliar, ano após ano, a defasagem idade/série, problema que atingia 46,7% dos alunos no ano passado.
Não tão radical quanto Hingel, mas desconfiado do sistema que permite aos estudantes passar de ano automaticamente entre as séries que compõem o ciclo, o secretário da Educação da Bahia, Eraldo Tinoco, quer avaliar o modelo. ‘‘Quero saber o grau de conhecimento que os alunos estão incorporando’’.
A decisão de Hingel preocupa a secretária de Ensino Fundamental do MEC, Iara Prado. Defensora dos ciclos, que seguem os princípios pedagógicos do MEC, Iara Prado esclarece, no entanto, que o sucesso do conceito depende de três medidas: as escolas precisam ter um projeto pedagógico detalhado; os alunos, avaliados periodicamente; e os professores, treinados.
Em Pernambuco, o secretário Éfrem Maranhão vê com entusiasmo a idéia de adotar ciclos. ‘‘Assim o professor pode acompanhar melhor o aluno’’. A mesma intenção tem a secretária da Educação do governo petista do Rio Grande do Sul, Lúcia Camini. ‘‘Vamos fazer um amplo debate’’, ressalva Lúcia.

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