São Paulo, 24 (AE) - A Sharp, fabricante de eletroeletrônicos, pediu hoje concordata preventiva na 39.ª Vara Cível de São Paulo, com dívidas acumuladas de R$ 645 milhões, sem garantias reais. Dentre os principais credores da empresa comandada por Sérgio Machiline, estão companhias especializadas em comércio exterior (tranding companies), bancos nacionais e estrangeiros, como Unibanco, BCN, BNL do Brasil, e fornecedores, como Sansung da Amazônia, Philips, Siemens, entre outros. O passivo total da companhia inclui a emissão de US$ 132 milhões de eurobonds e US$ 15 milhões de commercial papers.
Se o pedido for aprovado pelo juiz Virgílio de Oliveira Júnior, a empresa terá dois anos para quitar a dívida, tendo de pagar 40% após o primeiro ano e o restante no segundo ano, com correção anual de 6%.
A queda de vendas ao consumidor, as concordatas de grandes redes varejistas, como a Arapuã, cujo crédito era de R$ 100 milhões, e a desvalorização do real em relação ao dólar no início do ano passado foram apontados pelos advogados da empresa
Sérgio Bermudes e Ricardo Tepedino, como os fatores que afetaram o desempenho da companhia.
Como a empresa importa do Japão a maioria dos componentes dos aparelhos para serem montados aqui, ela acumulou um dívida em dólar e não tinha feito hedge, quando ocorreu a desvalorização. Com isso, os débitos em moeda estrangeira dobraram do dia para noite. "Isso fez com que a empresa não conseguisse pagar a dívida após a desvalorização", disse Bermudes.
A concordata, explicou o advogado, foi a saída encontrada pela empresa para evitar requerimento de falência, depois de várias tentativas de negociação com credores. Nos últimos meses, foram estudadas várias saídas para evitar a concordata. No início de 99, o Banco Santander fez uma proposta de reestruturação que não foi para frente. Depois houve a proposta do Unibanco, que também não vigou. Atualmente, a empresa estaria costurando uma fusão com a Gradiente e CCE, com a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo Bermudes, a concordata não afeta o processo de fusão entre as companhias. Segundo fontes que acompanham as negociações, a fusão ficou praticamente inviável. A união das empresas depende do dinheiro do BNDES e a experiência mostra que bancos oficiais não injetam recursos em empresas em dificuldades.
A assessoria do BNDES informou que o banco não vai falar sobre a concordata. Segundo a assessoria, a empresa não tinha financiamento no BNDES e o ex-presidente Andrea Calabi havia dito apenas que o setor se beneficiaria de uma reestruturação, caso ocorra uma fusão entre a Sharp, CCE e Gradiente.
O vice-presidente financeiro da Gradiente, Luiz Roberto Junqueira, negou uma possível fusão no setor eletroeletrônico, envolvendo a Gradiente, a Sharp e a CCE.
Com cerca de 4 mil funcionários, entre as unidades de Manaus (AM) e São Paulo, a Sharp chegou a faturar em épocas áureas, como em 1997, cerca de R$ 1 bilhão. Nos dois últimos anos, suas vendas declinaram muito e atualmente a empresa está fabricando produtos praticamente para venda direta. Bermudes diz que não há intenção de fazer demissões e paralelamente à concordata começa a ser alinhavado um plano de reestruturação da empresa.

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