Divergências impedem distribuição de combustível para serviços essenciais
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terça-feira, 27 de julho de 1999
Por Gustavo Alves 
Rio, 28 (AE) - Divergências entre os caminhoneiros em greve e a liderança do movimento impediram a saída de cinco caminhões transportando combustíveis da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), na Baixada Fluminense. No terceiro dia de paralisação na Rodovia Washington Luís (Rio-Juiz de Fora), ao lado da Reduc, um caminhoneiro foi detido pela Polícia Militar por jogar pedras contra caminhões e ônibus que passavam pela estrada.
No fim da tarde, os caminhoneiros negociavam a liberação de caminhões da Reduc para abastecimento de serviços essenciais. Pelo esquema acertado, os cinco caminhões que haviam sido retidos no início da manhã seriam liberados para descarregar o combustível em seus destinos e depois voltariam para transportar diesel para serviço essenciais (hospitais, polícias, ônibus e cooperativas de táxi) Pela manhã, os cinco caminhões tanques tentaram sair após um acordo entre a direção da Reduc e "alguém que se fez passar por líder dos caminhoneiros", informou o delegado do Sindicato dos Caminhoneiros do Rio, Minas Gerais e Espírito Santo, Otoniel Bittencourt. Os caminhoneiros não deixaram o comboio transitar e furaram pneus de dois dos veículos. Pelo acordo feito pela Reduc estava prevista a saída de outros 55 veículos, todos para abstecimento de postos de gasolina do Rio, que sequer deixaram o interior da refinaria.
À tarde, o comandante do policiamento da Baixada, coronel Francisco dAmbrosio, acertou com Otoniel a liberação dos cinco primeiros caminhões mas os caminhoneiros não concordaram com a decisão e mantiveram o bloqueio que iria ser suspendido dependendo do resultado da reunião do ministro dos Trasnsportes, Eliseu Padilha, com o presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiros, Nélio Botelho.
Bittencourt alertou que se o resultado da reunião, que até o final da tarde não havia acabado em São Paulo, fosse "insatisfatório", os caminhoneiros iriam bloquear as pistas da estrada para impedir o trânsito de qualquer tipo de caminhão. Outros veículos teriam a passagem liberada, ressalvou o delegado sindical.
Segundo Bittencourt, caminhões que transportavam cargas perecíveis não estavam sendo parados mas dois veículos com carregamento de verduras e hortaliças foram forçados a sair da pista e aderir ao movimento na manhã de ontem. O dono de um dos veículos, o produtor rural Mauro Yamamoto, transportava 200 caixas de verduras para a Ceasa (em Irajá, na zona norte do Rio) e contou que se ficar parado por muito tempo terá um prejuízo de R$ 1 mil com a perda do carregamento. A carga de Yamamoto era a produção de seu sítio em Petrópolis. "Ontem (terça-feira) liberaram minha passsagem", contou Yamamoto, que estava contrariado mas não queria se arriscar a seguir direto para a Ceasa. "Como eu vou direto?", questionou, rodeado pelos caminhoneiros que o fizeram parar.
A liderança do movimento informou que, em sua maioria, os caminhoneiros parados na Washington Luís são transportadores de cimento, que costumam partir da região serrana do Estado. Um deles, Carlos Cesar Ramos, reclamava do alto custo das viagens, principalmente após a privatização de rodovias, que resultou em cobrança de caros pedágios. "Fiz uma viagem de Nova Friburgo (RJ) para Lins (SP) e cheguei a gastar R$ 290 só de pedágio", reclamou. Ele disse que não pode tentar evitar as rodovias privatizadas porque corre o risco de ser multado pela polícia nas cidades à margem da estrada. "A Polícia Militar de São Paulo fica nos esperando só para achacar".
Ramos, proprietário de um Scania de cinco eixos, modelo 1978, calcula que, em uma viagem do Rio de Janeiro a Ribeirão Preto, gasta-se mais dinheiro com pedágio (R$ 320) do que com óleo diesel (R$ 250). Ele afirma que, dos R$ 1.100 que ganha por frete, gasta de R$ 700 a R$ 750 somente com o custo da viagem. Casado, com três filhos e "dívidas a torto e a direito", Ramos disse também que, com a recessão, aumentou o número de caminhoneiros ociosos e por isto o preço do frete foi baixando. "Já me ofereceram até R$ 30 por uma viagem", reclamou.
Ontem, os caminhoneiros receberam apoio de cerca de mil manifestantes sem-terra que participam da Marcha Popular pelo Brasil, caminhada na qual o movimento pretende chegar a Brasília no início de outubro. Os caminhoneiros almoçaram com os sem-terra, que depois seguiram para Santa Cruz da Serra, distrito de Duque de Caxias, onde pernoitariam.
Pouco antes da saída dos sem-terra, um caminhoneiro, que estava bêbado, segundo a Polícia Militar, e jogou pedras em um caminhão e um ônibus, ferindo o trocador, foi detido. A PM não informou o nome do caminhoneiro, que foi levado para 60ª delegacia de Polícia, em Campos Elisios.


