Assim como o Yad Vashem — o centro de memória do Holocausto de Jerusalém onde o presidente Jair Bolsonaro pactuou com a hipótese do chanceler Ernesto Araújo de que o nazismo foi um movimento de esquerda, na terça-feira (2) — o Museu do Holocausto de Curitiba segue o consenso da historiografia mundial, que relaciona o Partido Nazista à ascensão de grupos de extrema-direita na Alemanha dos anos 1920.

Aliás, antes de o presidente da República e o chefe das Relações Exteriores do Brasil afirmarem o contrário, seguidos por apoiadores nas redes sociais, essa não era sequer uma questão — nem na instituição abrigada no Centro Israelita do Paraná, no Centro Cívico, nem no resto do planeta.

“Quando esta questão é colocada para pessoas que lidam com o assunto fora do Brasil, muitas vezes há até incompreensão. Este assunto não gera controvérsia em outros lugares, e também não gerava até algum tempo atrás no Brasil”, diz Michel Ehrlich, coordenador do departamento de história do museu.

Isso não significa que o País esteja na vanguarda. O que ocorre, segundo o coordenador, é uma discussão puramente ideológica e isolada no momento político do Brasil, sem qualquer correspondência no meio científico.

Ehrlich até se disponibiliza a comentar argumentos específicos apresentados por discípulos das hipóteses de Araújo e do guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho. Mas explica que essa disputa simplesmente não dialoga com a metodologia histórica. “Trata-se de um falso debate”, diz Ehrlich. “Qualquer conclusão científica é sempre cabível de questionamento. A questão é com que argumentos se questiona o consenso. Quando historiadores afirmam que o nazismo era de extrema-direita, estão se baseando em uma metodologia e se sustentando em fontes históricas. Qualquer debate pressupõe que se parta de uma mesma base comum”, explica, reforçando que os argumentos e referências utilizados para sustentar a tese do “nazismo de esquerda” não são validados cientificamente. “Essas argumentações procuram, muito mais do que elaborar teorias e análises, a demonização do outro”, diz o historiador.

Ehrlich lamenta que o tema do nazismo seja utilizado desta forma. “Este tipo de declaração visa empurrar a responsabilidade do Holocausto para um suposto adversário político. É uma pena que este assunto, que acreditamos que tem um enorme potencial educativo de promoção da tolerância e da coexistência, seja utilizado para fins partidários”, diz.

Para o historiador, embora a discussão tenha encontrado espaço na esfera pública no Brasil e tenha como participantes seu chefe de Estado e seu chanceler, a questão não deverá provocar discussão no meio acadêmico. “O debate historiográfico segue determinadas rotinas metodológicas”, diz.

Ehrlich reconhece que, no atual cenário político do Brasil, há maior dificuldade para demonstrar estas premissas ao público em geral. “Este trabalho fica muito dificultado num ambiente ultrapolarizado, onde há uma deslegitimação da intelectualidade e da produção científica de um modo geral, e uma hiperideologização do conhecimento. Tende-se a tomar como verdadeiro o que é conveniente para si. É um efeito triste e lamentável de um ambiente polarizado.”

SEM POLITIZAÇÃO

A FOLHA questionou a Federação Israelita do Paraná sobre como a comunidade judaica percebe esta tentativa de revisão por parte de Bolsonaro e Araújo. Em viagem no exterior, o presidente da entidade, Isac Baril, disse, por meio de mensagem de áudio enviada via assessoria de imprensa, que a federação não se envolve em questões políticas.

“O que podemos falar sobre o Holocausto, sobre o nazismo, é que ocorreram atrocidades que resultaram em mais de 25 milhões de pessoas assassinadas — destas, 6 milhões de judeus. Eram índios, negros, judeus, cristãos, muçulmanos, povos de vários países que foram assassinados sistematicamente pelo nazismo. Para nós, este era o partido dos nazistas: um partido de mentiras, um instrumento de agressões contra muitos povos, um partido sanguinário”, disse.

mockup