O fim do problema da fome está diretamente ligado a ações concretas e ‘‘focadas’’ de distribuição de renda para atingir essa população, diz o coordenador da pesquisa Marcelo Neri.
Mesmo sugerindo que seriam necessários projetos do governo federal, Neri afirmou que esses programas têm de obter apoio da sociedade em geral. Ele disse, por exemplo, que os reajustes no salário mínimo podem não ser a melhor forma de atingir os miseráveis, como se pensava. Isso ocorre porque esses reajustes são destinados a pessoas que têm empregos, e um dos resultados do estudo revela que 56% dos indigentes pertencem a famílias chefiadas por pessoas que trabalham no setor informal da economia.
A pesquisa simulou situações para saber o que aconteceria com os indigentes em três cenários diferentes. O primeiro calculou a regressão do número de miseráveis no caso de o País crescer a uma taxa de 4% durante cinco anos, e o resultado foi de uma redução dos atuais 29,3% para 24,1%. No segundo cenário, foi imaginada uma diminuição de cerca de 10% na desigualdade de renda dos brasileiros, o que reduziu o porcentual de pobres para 21.6%. E a terceira hipótese foi a combinação das duas primeiras, crescimento econômico aliado à melhor distribuição de renda, e o resultado foi queda no total de indigentes para apenas 15,8%. Mesmo não acabando com o problema, ele praticamente seria cortado pela metade.
‘‘A desigualdade econômica é a nossa maior chaga, mas que, ao mesmo tempo, pode ser transformar no nosso maior trunfo’’, diz Neri. Segundo ele, ao contrário de muitos outros países pobres, pelo menos o Brasil tem renda suficiente para distribuir. ‘‘A Índia, por exemplo, tem um grande problema de miseráveis, mas lá a única solução é o crescimento econômico. Aqui não é possível diminuir bem o total de pobres apenas com medidas de distribuição de renda’’, afirmou. O único problema, segundo ele, é convencer as pessoas que a participação tem de ser de todos, mesmo daqueles que não se acham ricos.
Neri e outros professores da FGV já procuraram o governo federal para apresentar o estudo, mas não receberam resposta ou proposta de desenvolvimento de programas do governo. (A.E.)

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