Brasília, 06 (AE) - O serviço de disque-denúncia sobre o trabalho do Congresso foi criado em agosto do ano passado, mas apenas em outubro deste ano transformou-se em vedete nacional. Foram 13,5 mil ligações para o número 0800-619619 em novembro, até o dia 24, procedentes de todos os lugares do País.
Os atendentes têm trabalho redobrado cada vez que um suspeito de envolvimento no crime organizado aparece em redes de televisão prestando depoimento ao vivo. Os integrantes da comissão são municiados por informações recebidas pelo serviço, em tempo real, sobre casos de tráfico de drogas. Recebem sugestões de perguntas e alertam os parlamentares para contradições do depoente. Muitos ligam para elogiar ou pedir a instalação de uma CPI em seus Estados. Outros até encontraram no serviço uma forma original de oferecer um emprego.
Ao observar a dificuldade dos deputados em compreender o sotaque do colombiano Joaquim Hernando Castilla Jimenez - apontado pela CPI como um suposto membro de um esquema de lavagem de dinheiro e ouvido no mês passado pela plenária da comissão - um homem resolveu oferecer seus préstimos. "Me coloco à disposição para ser tradutor em Brasília", avisou ele, pelo telefone.
A maioria das pessoas que ligam para o disque-denúncia não se identifica. Uma mulher orientou os integrantes da CPI à ex-namorada do traficante carioca Fernandinho Beira-Mar, Alda Inês dos Anjos Oliveira: "Perguntem para ela o que ela foi fazer no Paraguai, o que comprou lá e como vendeu", sugeriu aos parlamentares. Outra mostrava maior preocupação com a vida pessoal de Alda Inês. "Quero saber se Alda não tem medo que o filho se torne um viciado", disse a mulher.
Ligam para o disque-denúncia pessoas de todos os Estados, inclusive dos ainda não visitados pela CPI, como do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Santa Catarina. "Divulguem mais nomes para a gente poder ajudar", pede um. Também há broncas dirigidas aos deputados. "Queria que o presidente da CPI (deputado Magno Malta) explicasse o motivo de sessões secretas (portanto, não transmitidas pelas redes de televisão)", queixou-se um homem. Um cidadão ligou, reclamando do tratamento que teria recebido da deputada Laura Carneiro. Sem conseguir ligar para o 0800, ele decidiu telefonar para o celular dela. Ele reclamava porque a deputada teria prometido rastrear a ligação.
O número do disque denúncia existia antes da CPI, quando era usado para quem pretendia fazer observações sobre projetos em pauta no Congresso. A média de ligações era de quatro mil. Em junho, quando se discutia no Congresso a proposta da previdência e também a de pôr fim à categoria dos juízes classistas, os atendentes receberam 12 mil ligações. Em seguida, as chamadas voltaram a cair. Em outubro, no entanto, os atendentes do disque-denúncia começaram a ter mais trabalho. Foram 6,5 mil telefonemas, quase três mil só para a CPI do Narcotráfico. No mês passado, as chamadas para a comissão que apura o crime organizado quase triplicaram. Das 15 mil chamadas, 90% eram destinadas à CPI e 4,5 mil transformaram-se em denúncias.
O índice de ligações aumenta no dia de um depoimento. Juntos, Alda Inês e o colombiando incentivaram 1.480 pessoas a ligarem nos dois dias em que compareceram na sessão. Enquanto a ex-namorada de Fernandinho Beira-Mar driblava os deputados com respostas evasivas, a CPI recebeu três ameaças de morte, uma dirigida à família da depoente, outra ao deputado Romeu Tuma e outra para a CPI inteira. No depoimento de José Gerardo, o Maranhão concentrou a maior parte das mais de mil chamadas.
"Façam uma investigação em um bar que está sendo usado como ponto para tráfico", avisava uma pessoa do Espírito Santo, indicando a localização. "Existe uma pista de pouso clandestina em Ipiguá", disse outro, de Porto Velho. Alguém liga, preocupado, denunciando um cidadão que recheia peixes com drogas. Até peças de telefone, conforme denúncias, estariam servindo ao tráfico.
São vários os pedidos de investigações em cidades, como Piracicaba (SP), Parati (RJ), Vilha Velha (ES) e Porto Seguro (BA), por exemplo. Nos telefonemas dos últimos dias, uma chamou a atenção dos atendentes. Era um homem que se dizia libanês, pronto para viajar para Europa com cinco quilos de cocaína. "Só desisti de viajar porque um padre foi preso por tráfico", informou.
Há quem ligue com informações, no mínimo, curiosas. "Não fizeram o exame de DNA no PC Farias (o empresário Paulo César Farias, supostamente morto pela namorada Suzana Marcolino) porque ele está vivo", informou, convicto, um morador de Campinas, no dia do depoimento do legista Fortunato Badan Palhares. O perito dividiu opiniões. Pelo menos quatro pessoas ligaram dizendo que o testemunho de Palhares era convincente. Uma pessoa, no entanto, queria vê-lo preso, embora a CPI não tenha obtido qualquer indício de que seus laudos de necrópsia tenham ligação com o crime organizado.
Há denúncias sobre policiais envolvidos com o crime organizado, que estariam pagando para serem libertados. Churrascarias são apontadas como ponto de tráfico e agências de turismo têm sido apontadas como empresas de lavagem de dinheiro. Do Maranhão, chegaram denúncias de pessoas que pertenceriam ao suposto esquema do ex-deputado José Gerardo.
"O disque-denúncia tem ajudado muito", contou o deputado e relator da CPI do Narcotráfico, Moroni Torgan. Segundo ele, por meio de uma chamada José Gerardo foi pego em contradição, ao depor. "Ele disse que não estava em uma determinada vaquejada, mas uma pessoa ligou e informou tê-lo visto e ele acabou admitindo a presença", disse Torgan.

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