Disputa pela PF gera novo atrito entre governo e PMDB
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segunda-feira, 07 de junho de 1999
Por Isabel Braga, Gerson Camarotti e Sônia Cristina Silva 
Brasília, 08 (AE) - A disputa pela diretoria-geral da Polícia Federal criou uma nova crise na base aliada ameaçando expurgar o PMDB do governo pela segunda vez neste ano. Pela manhã, o presidente Fernando Henrique Cardoso manifestou, por intermédio do ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, sua indignação com as declarações do presidente do PMDB, Jáder Barbalho, e do líder na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA) em relação à escolha do novo diretor-geral da PF. "O presidente não aceita as posições que o PMDB tem adotado nos últimos tempos e considera as última declarações absolutamente inconvenientes"
afirmou Pimenta da Veiga.
Logo em seguida, entretanto, Fernando Henrique ligou para peemedebistas e tucanos, para evitar um maior enfraquecimento de seu governo. Estimulados com as declararções de Pimenta da Veiga
alguns tucanos chegaram a sugerir que Fernando Henrique demitisse o ministro da Justiça, Renan Calheiros, como demonstração de sua autoridade. Uma alta autoridade do PMDB mandou logo um aviso ao Planalto: "Se demitirem o Renan, o partido todo deixa o governo."
Falando em nome do partido no final da tarde, Jáder tentou reduzir o tom das declarações dadas ontem. "É preciso ficar bem claro que o PMDB não fez indicação nenhuma", disse, justificando que a escolha é do ministro, por solicitação de Fernando Henrique. "O que o PMDB reivindicou é que seu ministro não seja desprestigiado e com isso estamos defendendo uma indicação técnica, a ser discutida entre o presidente e seu ministro", disse. Mas se poupou o presidente, Jáder voltou a atacar os aliados. "O que não podemos aceitar é que outras autoridades, de outros partidos, tenham ingerência no caso e venham meter o bedelho e a colher enferrujada neste assunto", criticou. "Fazendo isso eu não vou ficar calado" disse, indignado.
Durante todo o dia, os principais líderes da base mantiveram vários encontros políticos para tentar contornar a agitação provocada pela reação de Fernando Henrique e dos tucanos às declarações fortes e irônicas de Jáder e Geddel, publicadas hoje na imprensa.
Jáder sugeriu que Fernando Henrique colocasse Cardoso no ministério Justiça e Geddel afirmou que o presidente "teria o direito de fazer, restrições", mas que a indicação para a PF tinha de ser do ministro. O líder do governo no Congresso, deputado Artur Virgílio (AM), encontrou-se com o senador Antônio Carlos, com Jáder e Geddel e defende uma "saída honrosa" tanto para Renan quanto para o general Cardoso. Fernando Henrique ligou para o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que foi o primeiro do partido a incorporar a função de bombeiro da crise. "Vamos superar isso, o presidente é conciliador e eu também sou". Mas o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG), que também esteve com ACM, engrossou o coro dos incendiários.
"É um momento extremamente infeliz das lideranças do PMDB, que devem se recolocar diante do episódio", cobrou. " Só há um brasileiro capaz de nomear ou demitir, que é Fernando Henrique e faço essa recordação para o líder Geddel." Para Aécio, se Geddel não se retratar, poderá comprometer as relações futuras dentro da base aliada. "O PMDB tem de decidir que tipo de relação quer ter com o governo; com esse tipo de relação é difícil prosseguir por mais três anos." Jáder preferiu ignorar Aécio. "Minha relação é com o presidente com mais ninguém", disse.
Vários fatores vem provocando a irritação do presidente em relação ao PMDB, a começar pela insistência em criar a CPI dos Bancos e agora, mais recentemente, forçar o depoimento do ex- ministro Andrade Vieira, ressuscitando a polêmica em torno do Programa de socorro aos bancos ( Proer). Também irritou o presidente o fato de o ministro da Justiça, Renan Calheiros, tornar pública a briga entre Polícia Federal e a área de inteligência, chefiada pelo ministro-chefe da casa Militar, general Alberto Cardoso, porque não havia conseguido emplacar na diretoria-geral o interino Wantuir Jacine.
REAÇÃO - Fernando Henrique chamou Pimenta ao Palácio da Alvorada logo pela manhã. Os dois conversaram por mais de duas horas e o tucano deixou o Alvorada demonstrando a indignação do presidente: "Esses que querem enfrentar o presidente precisam compreender que estão confundindo tolerância com fragilidade", atacou. "No momento adequado, eu tenho absoluta convicção de que o presidente demonstrará que forte politicamente no País é o presidente da República."
Segundo Pimenta, o presidente o chamou até o Alvorada e os dois fizeram "avaliações políticas sobre o episódio", mas não chegaram a discutir "questões administrativas", ou seja, nomes para ocupar a diretoria-geral da Polícia Federal. O tucano cobrou dos demais partidos da base apoio ao presidente. "Os partidos que apoiam o governo devem manifestar irrestrita solidariedade ao presidente, em termos políticos e até mesmo pessoal." "Todo mundo concorda que o PMDB foi longe demais, ultrapassou todos os limites, quis invadir a competência do próprio presidente da República", enfatizou. "Considero as declarações desses últimos dias insuportáveis."
Mas o ministro evitou falar sobre rompimento com o partido. "O presidente certamente vai refletir e tomará as providências que parecer a ele adequadas." Enquanto o ministro Pimenta da Veiga dava fortes declarações contra o PMDB, o ministro da Justiça, Renan Calheiros, reafirmava sua disposição de indicar um nome "técnico" para o cargo. E chegou a declarar: "Se a indicação (que é feita pelo presidente Fernando Henrique) não se basear em critérios técnicos, eu não aceitarei", afirmou. "Repilo qualquer tentativa de politizar a Polícia Federal", acrescentou o ministro.
Calheiros enfatizou que a definição está sendo feita com base em atributos como seriedade e probidade e reafirmou que o atual diretor-geral interino da PF, Wantuir Jacine. Quando os jornalistas indagaram se Wantuir tinha essas características, Renan afirmou: "Claro que sim, senão eu teria colocado ele como substituto." O ministro negou que esteja havendo confronto entre a Polícia Federal e a área de inteligência do governo, chefiada pelo general Cardoso e que foi o próprio Fernando Henrique quem pediu que ele escolhesse um nome para a PF. "A PF não pode ficar à merce de grupos ou de partidos e por isso o PMDB defende uma escolha essencialmente técnica."


