Disputa entre traficantes deixa seis mortos em morro do Rio
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por Andreia Maia 
Rio, 28 (AE) - Um grupo de 50 a 60 homens armados com pistolas, de acordo com a Polícia Militar, invadiu o Morro Cerro-Corá, no Cosme Velho, na zona sul do Rio, nesta madrugada e executou com tiros na cabeça seis homens. Todos os mortos seriam traficantes. Entre eles está o líder do tráfico na favela
Alex Tavares da Silva, de 22 anos, o "Nem Olhão". O grupo teria sido arregimentado por Rodinelli Silva, expulso da favela depois da morte de seu primo e ex-chefe do tráfico no local, Pedro Roberto Silva, o "Bruxo", há um mês.
A matança durou 30 minutos e provocou pânico entre os moradores do morro e de prédios vizinhos. Os invasores fugiram com a chegada da Polícia Militar. "Foi uma sequência de tiros que parecia o holocausto", disse o morador Pedro álvares, de 68 anos, que nasceu na favela. Um dos tiros atingiu o apartamento de fundo do luxuoso Edifício Daniel Maclise, na rua Cosme Velho, 415. De acordo com a PM, a bala atravessou a vidraça e alojou-se num colchonete que estava na sala. No local, dormiam Sérgio Medrado da Costa e sua mulher. Eles teriam saído do quarto para escapar de balas perdidas e foram para a sala. Os bandidos usaram pistolas de calibres 9, 40 e 45 milímetros, a última de longo alcance.
Invasão - O comandante em exercício do 2º Batalhão da Polícia Militar (Botafogo), tenente-coronel Jorge Freitas, disse que a invasão ocorreu por volta das 4h e o "acerto de contas" foi na principal rua da favela, conhecida como Dellari. Os corpos de Adailton Tavares da Silva, de 29 anos, irmão de "Nem Olhão"; Demétrio Silva, de 19 anos, Paulo Henrique da Conceição
de 21 anos, o "Paulinho Marrento"; Demétrio Hércules dos Santos, de 21 anos, Fernando de Oliveira, de 17 anos, o "Pepé"
além de "Nem Olhão" foram espalhados no local e nas ruelas próximas. Moradores contaram que o bando chegou à favela a pé e por trilhas na mata que cerca o morro. Não houve reação das seis vítimas, executadas com vários tiros na cabeça. Para o comandante, os invasores preparam uma cilada para os traficantes do local."Eles chamaram as vítimas para conversar sobre o movimento do tráfico e num dado momento fizeram a execução", disse o tenente-coronel Freitas, após obter informações com as famílias das vítimas.
De acordo com o comandante, os pontos-de-venda de drogas no morro eram controlados por "Nem Olhão". Ele ocupou o lugar deixado por "Bruxo", que morreu há cerca de dois meses, quando a granada que manuseava explodiu. Ele era apontado pela polícia como o assassino da estudante Ana Carolina Lino, executada no Túnel Rebouças, na zona sul do Rio, em setembro de 1998.
Após assumir a liderança do tráfico, "Nem Olhão" decidiu expulsar alguns traficantes da favela, entre eles Rodinelli Silva, alegando que eles desviavam drogas e armas para morros vizinhos. Revoltado, Silva foi para o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no centro, onde arregimentou "soldados" para a invasão.
Família - O pai dos irmãos "Nem Olhão" e Adailton, Manoel Tavares da Silva, de 54 anos, lamentou a perda dos filhos e disse que estava conformado. "Esse é o destino das pessoas envolvidas com drogas." Ele contou já ter perdido cinco dos 14 filhos na guerra do tráfico. Outros dois estão presos e sete são trabalhadores.
Prédio - Moradores do Edifício Daniel Maclise, que não quiseram ser identificados, afirmaram ter sido a primeira vez que um projétil acerta uma vidraça. Peritos da Polícia Civil disseram que as janelas de fundo do edifício dão para a favela, que fica a 200 metros. O projétil foi retirado do colchonete e levado para a 9ªDP, onde será periciado.


