Disputa dá-se entre quatro grandes blocos
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sexta-feira, 04 de junho de 1999
Por Pepe Escobar 
Jacarta. 05 (AE) - Estas eleições são fundamentais não apenas porque decidem o novo Legislativo indonésio, a DPR, mas porque são a chave para o próximo Executivo. A DPR representa dois terços do colégio eleitoral - a MPR -, que deve escolher o novo presidente, numa sessão inicialmente marcada para o fim de outubro.
As cadeiras do DPR votadas amanhã devem configurar a direção ideológica do país nos próximos cinco anos. Mas a presidência vai depender dos conflitos, coalizões e conspirações que se devem suceder nas semanas após as eleições.
Mesmo em um cenário político tão complexo quanto o "wayang" - o teatro de bonecos à sombra -, é possível dividir os principais atores destas eleições em quatro blocos principais: Reforma, Status Quo, Java e Islã.
A classificação não é rígida: Megawati, por exemplo, é uma javanesa pró-reforma (não-radical), Amien Rais é um pró-reformista radical do Islã modernizador, e Suharto é um javanês epítome do status quo. Megawati Sukarnoputri - Líder do PDI-P, o "mar vermelho" das massas populares que inundou as ruas de Jacarta e Yogyakarta na última semana de campanha. A filha do líder nacionalista Sukarno foi a vítima mais notória da repressão de Suharto. É uma fada madrinha para o povo. Favorita para a presidência praticamente sem plataforma: representa o retorno do Messias em versão feminina. Seu partido, bem organizado, com uma campanha sofisticada, a vende como uma pessoa comum humilde e honesta. É pró-reforma, com ênfase em Java. Gus Dur - Líder - influentíssimo - de uma organização muçulmana com mais de 30 milhões de adeptos. Por problemas de saúde, não aspira à presidência. É pró-reforma, derivando para o Islã. Não está muito à vontade em sua aliança com Megawati e Amien Rais: é um tradicionalista e Amien Rais, um modernista. Amien Rais - Ex-diretor de um grupo de caridade muçulmano com 28 milhões de adeptos. Estudioso respeitado, educado no Ocidente. Seu partido, o PAN, seduz acima de tudo muçulmanos modernistas e intelectuais urbanos - mas é praticamente desconhecido nos cafundós rurais. Beneficia-se da aliança com Megawati. É pró-reforma - radical, o mais cedo possível -, derivando para um Islã moderno e esclarecido. Adi Sasono - Ministro das Cooperativas do governo Habibie. É um populista muçulmano: quer privilegiar os "pribumis" - os filhos da terra -, e não morre exatamente de amores pelos magnatas chineses que dominam a economia. Foi "desligado" do Golkar há menos de duas semanas e tem seu próprio partido. Akbar Tandjung - Velha raposa política, é o atual presidente do Golkar, o partido do governo. Extremamente leal a Habibie. É ele quem controla a organização, as conexões e as chuvas de dinheiro com as quais o Golkar pretende permanecer no poder. Status quo total. B. J. Habibie - Presidente há um ano, chegou ao poder como uma solução de compromisso e agora não quer mais ir embora. Quer entrar para a história. Tem apoio da máquina do Golkar - porém muitos já começam a desertar, sentindo que o vento sopra na direção de Megawati, especialmente após a tênue, porém eficaz, coalizão de Megawati, Amien Rais e Gus Dur. Status Quo, porém oferecendo reforma a conta-gotas. Suharto - Melhor exemplo do status quo, mestre do teatro de bonecos à sombra que durante 32 anos no poder dirigiu o arquipélago como uma Suharto Family Inc. Não se sabe até onde pode chegar para proteger os privilégios da adorada família. Time sistematizou o baú da felicidade em US$ 15 bilhões, mas para muita gente em Jacarta pode passar dos US$ 40 bilhões. Seu terror supremo seria um reformista radical como Amien Rais na presidência. Megawati diz que não irá processá-lo. Hamengkubuwono X - Sultão de Yogyakarta, apolítico, capaz de projetar uma imagem moderna. Pertencia ao Golkar; depois que saiu não se filiou a nenhum partido. Possibilidade de que seja o candidato de compromisso à presidência caso desabe a coalizão Megawati, Gus Dur e Amien Rais. Javacêntrico, é claro, não é exatamente um reformador. Wiranto - O taciturno comandante das Forças Armadas é o azarão do páreo presidencial. Não está exatamente comandando todas as forças militares - desacreditadas ao extremo desde os assassinatos de estudantes na "primavera de Jacarta", em maio de 1998. Mas Wiranto controla 38 cadeiras, quase 8% da Assembléia. Todo candidato à presidência será obrigado a cortejá-lo. Megawati disse que não se importa com uma composição com a ABRI. Wiranto é a favor de reformas, contanto que os militares mantenham a famosa "dupla função" - ou seja, não se retirem da política. Seu segredo: manobra em silêncio total para ser ele mesmo o presidente.


