Santiago, 15 (AE) - No início da noite de quinta-feira, a esquina dos "paseos" Huérfanos e Ahumada, no coração de Santiago, ainda permanecia cheia de gente. A esquina das duas ruas exclusivas para pedestres, não muito longe do Palácio La Moneda, onde irá trabalhar o próximo presidente chileno, é o ponto preferido de disputa entre os grupos de cabos eleitorais dos dois candidatos para distribuição de panfletos aos eleitores
principalmente durante o pico do movimento de pedestres, nos horários de almoço de dias úteis.
É nessa esquina também que desconhecidos reúnem-se para discutir política e rodas são formadas e desfeitas rapidamente, de acordo com as discussões. Nas rodas da noite de quinta-feira, o assunto não podia ser outro: as eleições de amanhã, que dividem e provocam paixões entre os chilenos.
Uma pesquisa feita por um instituto britânico mostrou empate técnico entre os dois candidatos, com uma ligeira vantagem do governista Ricardo Lagos contra o oposicionista Joaquín Lavín.
Uma outra pesquisa divulgada pelo jornal El Mercurio, feita pela empresa Research and Research, de Porto Rico, também dá empate técnico, mas desta vez com ligeira vantagem para Lavín. O candidato da oposição, segundo essa pesquisa, teria 50,4% das preferências e Lagos, 49,6%. A diferença entre os dois candidatos é de menos de 2,1%, margem de erro da pesquisa. As sondagens mostram que o país está dividido e não é difícil perceber isso pelas conversas nesta esquina do centro de Santiago.
Qualquer discussão nesse ponto da cidade é acompanhada por dezenas de pessoas. O que era para ser uma entrevista com um militante pró-Ricardo Lagos transformou-se em alguns minutos numa roda formada basicamente por pouco mais de 20 homens, mas à qual aderiam também adolescentes e senhoras.
Uma regra não escrita da esquina dos paseos Huérfanos e Ahumada é que todos dão livremente suas opiniões, mas ninguém se apresenta dizendo o nome. Algumas pessoas são reticentes em dizer seus nomes, mesmo explicando que a identidade só será divulgada fora do país.
No centro da roda está o comerciante Pedro Martínez, de 47 anos, barba por fazer e usando um colete de plástico com o logotipo da campanha de Lagos sobre a camiseta azul. Os argumentos de Martínez para afirmar que Lagos vai ganhar são mirabolantes. "Muita gente pensava que Lagos tinha 51% dos votos no primeiro turno e por isso não votou. Agora todos sabem que a diferença entre os dois é pequena e vão votar para que Lavín não ganhe."
Um senhor de bigode diz que o país está dividido. "Nós chilenos somos radicais: metade acredita numa coisa, a outra metade acredita exatamente no contrário."
Os ânimos se inflamam quando se pergunta se alguém os paga para fazer propaganda eleitoral a favor de Lagos. A discussão animada atrai uma senhora, que diz que rasgou propaganda eleitoral do adversário. Logo começa a falar uma adolescente que se identifica apenas como Enriqueta, com um lenço vermelho no pescoço, preso por um broche do candidato, sobre a disputa para colocar propagandas eleitorais nos muros da cidade.
Ao ouvir falar mal de seu candidato, Joaquín Lavín, uma senhora gorda aproxima-se irritada e diz que votará no oposicionista porque os governos da Concertación só pioraram a sua vida e a de seu marido, que é professor. "Há muita gente pobre, que está morrendo de fome, precisamos de uma mudança", diz a senhora, isolada em meio a um grupo de laguistas que protestam enquanto ela tenta argumentar a favor de seu candidato.
"Lavín é candidato dos ricaços", grita a adolescente. "A Concertación não fez nada além de piorar a vida de minha família", responde também aos gritos a senhora, para retirar-se depois de alguns minutos de inflamada discussão.
A saída da partidária de Lavín faz com que os adversários voltem à tentativa de convencimento, que dura mais meia hora. A roda renova-se a cada minuto, com pessoas saindo e seguindo para suas casas e novos integrantes que vêm dar palpites nas discussões.
A quinta-feira foi o último dia permitido para a propaganda eleitoral no Chile, tanto na tevê quanto na distribuição de panfletos e santinhos dos candidatos. A avenida principal de Santiago, Bernardo OHiggins, enfrentava o trânsito pesado do início da noite, mas com alguns veículos diferentes.
Caminhões de som com dezenas de cabos eleitorais de Lavín e Lagos e caravanas de simpatizantes dos candidatos percorriam a avenida fazendo barulho.
A aproximação da eleição e o virtual empate entre os dois candidatos acirraram os ânimos de cabos eleitorais e foram registrados alguns incidentes isolados. Por volta das 21h30 de quinta, uma briga entre partidários dos dois candidatos deixou 20 feridos no bairro de Macul.
Outro incidente da noite de quinta-feira ocorreu em Puerto Montt, perto de Valparaíso, com uma pessoa ferida, e na manhã desse dia nove pessoas ficaram feridas numa briga por espaço para propaganda eleitoral num muro, no bairro de Maipú. (T.B.)

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