Discussão sobre cores aponta divergência nacional sobre educação sexual
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sábado, 05 de janeiro de 2019
Pedro Moraes <BR> Reportagem Local 
O assunto ganhou as redes sociais, que foram coloridas de azul e rosa. Seja em tom de protesto ou mesmo de piada, ambos os lados da discussão não permitiram que a fala da ministra Damares Alves, responsável pela pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, passasse em branco. Momentos após tomar posse, na quarta-feira (2), ela surgiu em um vídeo na internet em que afirma: "É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa". A reação foi pesada e, horas mais tarde, em uma entrevista ao Jornal das Dez, na GloboNews, ela negou ter se arrependido e se explicou. "Foi uma metáfora. Nós temos no Brasil o 'Outubro Rosa', que diz respeito ao câncer de mama com mulheres, temos o 'Novembro Azul', que é com relação ao câncer de próstata com o homem. Então quando eu disse que menina veste cor de rosa e menino veste azul, é que nós vamos estar respeitando a identidade biológica das crianças", disse, na edição de quinta-feira (3).
O discurso faz uma referência clara à política de gênero, que é amplamente criticada pelo governo, em especial, pelo presidente Jair Bolsonaro. Mais do que a discussão sobre a diversidade sexual, o tema abrange a educação sexual nas escolas, que está longe de ser uma unanimidade nacional. A psicóloga, doutora em Educação e especialista no tema, Mary Neide Damico Figueiró, analisa que os extremismos em relação ao assunto causam perdas para o processo educacional. Ela atua na formação de professores sobre o tema desde 1995 e sempre percebeu uma resistência muito grande em relação à matéria. "Luto há muitos anos para que as escolas ofereçam conhecimentos básicos sobre a sexualidade, de forma que as crianças conheçam seu corpo, entendam sobre a formação da vida e, inclusive, aprendam a identificar o que possa ser um abuso. O problema é que nos últimos anos a educação sexual foi suplantada pelas discussões de diversidade sexual", avaliou Figueiró, atualmente pesquisadora e professora sênior da UEL (Universidade Estadual de Londrina).
O avanço na pauta social no Brasil - em especial no que se diz respeito à diversidade sexual - se deve em grande parte ao trabalho dos movimentos sociais nos últimos 20 anos, mas os ganhos foram conquistados sem a devida mediação com a sociedade, fato que é uma das consequências de uma reação tão forte da parcela conservadora da população. "Grande parte das pessoas não está preparada para lidar com a homossexualidade de seus filhos. Não tem informação sobre isso, imagina falar de transexualidade. E nem precisa ser uma família muito religiosa. Era preciso que essa fosse uma discussão apresentada de forma gradual. Entender como os professores tocam no assunto. Não pode ser um oba-oba e nem tratar de forma festiva", explicou a psicóloga. Ela ainda acredita que o chamado kit gay foi uma ideia mal executada. "Foi apresentado de forma que assustou as pessoas e afastou ainda mais a possibilidade de implantar uma educação sexual adequada. É claro que a diversidade sexual é importante, mas ela é apenas uma parcela do tema", pontuou a especialista.
A educadora ainda defendeu o papel da escola como formadora de valores e não só de conteúdo. Para isso, no entanto, é preciso da confiança das famílias. "Acredito que os valores humanos devem ser passados. Combater o preconceito de uma forma universal. Não acredito que cabe à escola dizer o que fazer sexualmente, assim como não cabe à igreja ou não se deve seguir a opinião dos pais. É preciso educar para criar uma pessoa com autonomia, sem apontar valores, mas compreendendo o mundo", ponderou a psicóloga. A discussão simplista sobre as cores para homens e mulheres, porém, pouco ajuda os avanços sobre o assunto, independentemente do lado da discussão. "Esse tratamento tem um significado carregado de sexismo. Um tema antigo, desde os primórdios da Filosofia, que volta e meia volta à tona e serve para desvalorizar a mulher. É desnecessário", criticou Figueiró.
Nas ruas, o assunto não é um consenso. O londrinense se divide sobre a adoção da educação sexual nas escolas. O comerciante José Carlos Souza Júnior, 37, é pai de duas meninas de 9 e 5 anos, e prefere que a orientação seja feita em casa. "Eu estou de acordo com a opinião de que se deve retirar a discussão de política de gênero das escolas. Me preocupa essa ideologia, acho que é um assunto que deve ser tratado em casa pelos pais, na idade correta", opinou. A promotora de vendas Michele Araújo Ferreira, 26, pensa de forma divergente. Para ela, a educação sexual pode ser uma forma de proteção. "Não acredito que uma criança possa se tornar gay porque ouviu falar em homossexualidade. É um assunto importante para se tratar no colégio até para ensinar o que pode ser abuso. Tem muitos casos de crianças que são abusadas pelo próprio pai", declarou. Já o aposentado Paulino Nishio, 68, acredita que há de propor o assunto, mas não para crianças pequenas. "Precisa chegar a uma determinada idade para se falar, mas este é um tema complicado", ponderou.
No campo da política, a temática da diversidade sexual é um assunto tratado de forma quase que bélica entre direita e esquerda. O resultado das eleições gerais de 2018 apontou uma forte orientação do eleitorado brasileiro em termos mais conservadores. "Acho que faltou diálogo e a militância radicalizou demais nos últimos anos. Isso assusta, impressiona e provoca reações. Não é difícil lembrar de manifestantes nas ruas até defecando durante os protestos. Isso só ajuda na ideia de que os grupos são baderneiros. A agressividade cristalizou o conservadorismo", apontou o cientista político Mário Sérgio Lepri, professor universitário. O estudioso acredita que o cenário montado entre governo e oposição aponta um caminho quase que impossível de diálogo. "Não vejo interesse da esquerda em negociar nada. O Bolsonaro, como governo, em algum momento precisará ceder, mas isso é algo que só o tempo dirá", concluiu Lepri.
A cor rosa estabelecida como um padrão feminino se deve à ex-primeira dama americana Mamie Eisenhower, mulher do então presidente americano Dwight D. Eisenhower. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, ela escolheu o rosa para aliviar o excesso de verde e azul predominantes nos uniformes dos militares e das mulheres que enfrentavam a dura jornada nas fábricas durante o conflito. A preferência ganhou os editoriais de moda, conforme pode ser visto no documentário "How did pink become a girly color?", livremente traduzido como "Como o rosa se tornou uma cor feminina?", disponível no Youtube. A moda lançada nos idos anos da década de 1950, no intuito de aliviar os ânimos, acabou por torná-los, 70 anos depois, mais aguçados. Independentemente da cor da roupa, ou da preferência - do vestuário ou sexual -, o equilíbrio e o diálogo são o caminho para a convivência das diferenças. E bom-senso nunca sai de moda.


