Discussão levantada por Krugman foi atropelada pelos fatos
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Priscilla Murphy 
São Paulo, 17 (AE) - Qualquer investidor audacioso teria motivos para comprar os títulos da dívida externa brasileira depois da sexta-feira negra, dia 29 de janeiro, o que torna a polêmica em torno das afirmações do economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Paul Krugman, a respeito do megainvestidor George Soros e do presidente indicado para o Banco Central, Armínio Fraga, realmente um "incêndio" inesperado, como disse o economista americano em sua página na Internet.
Sabia-se que o dólar chegou a superar os R$ 2 na sexta-feira por causa da ação dos especuladores que detinham os primeiros contratos futuros de câmbio a vencer depois da desvalorização do real, emitidos pelo Banco do Brasil. Na segunda-feira, dia 1º, os contratos seriam liquidados e o Banco do Brasil teria de pagar a diferença entre a cotação média do dólar na sexta-feira e a prevista no contrato, de R$ 1,21. Analistas comentavam no dia que até mesmo os boatos de confisco foram plantados por esses investidores, em busca de ajuda de todos que tentassem proteger seu dinheiro no Brasil comprando dólares, para pressionar ainda mais o real.
Isto, em meio à crise geral de confiança em que o governo estava com dificuldades de enfrentar - o Banco Central demonstrou perda de controle, por exemplo, ao tentar conter o real numa banda de flutuação mais larga antes de ter de deixá-lo flutuar -, estava limitando a recuperação dos C-Bonds, que chegaram ao fundo do poço com a demissão de Gustavo Franco e a mudança na política cambial (49,5 centavos de dólar, em 14 de janeiro).
Na quinta-feira, dia 28, o título da dívida externa brasileira mais negociado fechou cotado a 53,25 centavos de dólar. Em novembro, havia alcançado os 68 centavos de dólar. Mesmo descontando um prêmio maior do que em novembro, pelo risco de se manter um ativo brasileiro após a desvalorização, era natural esperar que a cotação fosse subir na segunda-feira porque já havia uma tendência de recuperação contida pela especulação sobre o real, que perderia sentido após a quitação dos contratos futuros.
Mesmo que Fraga tivesse dito a Soros "olha, estou indo para o Banco Central e o mercado deve receber isto bem, já que sou um economista conceituado no exterior", seu patrão não era o único a desconfiar disto. Desde que Fraga anunciou sua mudança para o Brasil e manteve reuniões públicas com o governo em meados de janeiro (foram as primeiras consultas oficiais ao economista desde o início de 1997, na época da privatização da Vale do Rio Doce), o mercado especulava que ele estava sendo convidado para a equipe econômica.


