Brasília, 01 (AE) - A queda de popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, que tradicionalmente ocorre em maio, por causa do reajuste do salário mínimo, foi antecipada este ano, ofuscando fatos positivos na economia, porque o governo permitiu um vazio no debate político a partir de janeiro. Na avaliação do ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, como não existe vácuo em política, o espaço foi ocupado pela discussão sobre o mínimo, desgastando a imagem do governo frente à população.
Veiga não mencionou o responsável pelo desgaste de Fernando Henrique - o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) -, mas lamentou que o governo tenha dado espaço para o ocorrido. "Nós deveríamos ter criado temas para discussão, mas deixamos espaços vagos que foram explorados", disse. O mea-culpa, segundo ele, vai levar a uma reação que se delineia: o PSDB estará mais atento a temas de relevância para a sociedade, para pronta inserção. "Temos de trabalhar para comandar a agenda de debates", comentou ele. "Nós é que temos de nos mobilizar."
Desde janeiro, quando começou a convocação extraordinária do Congresso, o presidente vem sendo alvo de críticas de ACM. Começou com a insistência do senador em votar a emenda que restringe o uso de medidas provisórias (MPs). O embate ganhou novos níveis na discussão do teto salarial do funcionalismo, que culminou na discussão antecipada sobre o salário mínimo.
Nos três episódios, o governo ficou na defensiva. Veiga avalia que a inércia não decorre da falta de posições políticas, mas da desorganização partidária do PSDB.
Os embates produziram um clima de confronto com o Judiciário, que chegou à ameaça de greve dos juízes. E provocaram instabilidade que comprometeu o clima de retomada da confiança da população que vinha sendo identificado nas pesquisas. "O que incomoda é que o clima de confiança foi perturbado", lamentou o ministro.
Além disso, o ministro citou fatos positivos na economia que acha que foram ofuscados pela disputa política, como a reavaliação positiva do desempenho do País pela classificadora de riscos Standard&Poors, o interesse de investidores estrangeiros no mercado nacional e a retomada do crescimento sem pressão inflacionária e com melhoria das contas públicas. "Tantos fatos positivos não deveriam ter sido obscurecidos pela incapacidade do governo de ocupar espaço de debate."
Diante do quadro, que continua impreciso, Veiga propõe adiar a decisão sobre o mínimo e definir logo o teto salarial. "São discussões diferentes."
Na opinião dele, o teto pode ser fixado agora, porque o impacto sobre as contas públicas tem o efeito de reduzir gastos com salários. Já o aumento do mínimo - envolto em discussões demagógicas, para ele -, deve ser decidido após amplo debate. "O governo fará o máximo, desde que não comprometa o ajuste fiscal", adiantou. "Não adianta dar demagogicamente um aumento elevado que puna o trabalhador com a volta da inflação."