Discursos não foram políticos, diz porta-voz
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de outubro de 1997
Das agências Rio 
A veemente condenação que o papa João Paulo 2º fez do aborto em seus discursos no Rio, bem no meio das discussões sobre o projeto de lei que legaliza a prática no Brasil, não pode ser vista como um pronunciamento de caráter político, segundo o porta-voz da Santa Sé, Joaquim Navarro Valls. O porta-voz diz que é previsível o Santo Padre falar de aborto, ainda mais quando o tema é a família. Ele admitiu que as palavras usadas, abominável crime da humanidade, são fortes, mas estão na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Lumen Gensium.
O problema das seitas, outra preocupação da Igreja Católica, não foi tocado pelo Santo Padre em seus discursos. Os bispos brasileiros conhecem bem o tema e trataram dele durante a Conferência Episcopal; o papa não tem nada a acrescentar, disse, e lembrou que o objetivo é incrementar o trabalho pastoral da Igreja. Os outros façam o que quiseram, comentou Navarro Valls, que lamentou as estatísticas divulgadas pelos jornais, que em sua opinião não muito claras a respeito. Segundo os números que os próprios jornais publicaram, a população católica no Rio em 1971 era de 63%, hoje passou para 82%, citou. Me pergunto quem está crescendo, comentou.
A reportagem indagou a Navarro Valls por que o papa mencionou as desigualdades sociais no Brasil, mas não abriu em sua agenda espaço para receber grupos de dentro da igreja - como a Comissão Pastoral da Terra - que se dedicam precisamente a essas questões.
Ele respondeu que o papa confia o bastante nessas pastorais para precisar orientá-las. Acredita no trabalho que desenvolvem e na eficácia das diretrizes que os bispos brasileiros lhes transmitem. O porta-voz disse que a ênfase de João Paulo 2º nos problemas da família toma por base o aumento do consumo de drogas, a criminalidade infanto-juvenil e até o suicídio entre os mais jovens. Os governos tendem a considerar que se trata de um problema social. Mas o que está em jogo é a crise da família, que precisa ser reforçada em seus valores para que as coisas tomem novos rumos.
Carta - Mesmo impedido de participar de uma das audiências com o papa, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) enviou ontem uma carta a João Paulo 2º. Os sem-terra convidam o papa a morar no Brasil. Só assim nossas elites teriam mais vergonha de cometer seus crimes contra os pobres, afirma a carta. O texto foi entregue anteontem ao senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que estaria presente à missa campal que o papa celebrou ontem no Rio. Ele tentou entregar a carta a João Paulo 2º mas não conseguiu. Depois de ser barrado pela segurança, o senador se conformou em deixar a carta com Alberto Gasbarri, um assessor italiano do papa. Ele garantiu que o papa vai recebê-la, disse.


