Discurso de FHC na sessão de abertura da Cimeira
Rio, 28 (AE) - Discurso do presidente Fernando Henrique Cardoso feito hoje na sessão de abertura da reunião de chefes de Estado e de governo da América Latina e Caribe e da União Européia (UE), no Rio:
"A globalização - tanto no plano comercial quanto no financeiro - é um progresso irreversível, mas seus efeitos dependem de nossas decisões e de nossas ações. Depende de nós fazer com que ela promova as oportunidades de desenvolvimento, que favoreça o investimento produtivo, que reduza as assimetrias de riqueza e de bem-estar. E é preciso reconhecer: as realidades de hoje ainda estão longe de responder a essas expectativas.
A globalização deve valer para todos. Não pode ser dádiva para os ricos e privação para os pobres. transformar a globalização assimétrica em globalização solidária é uma questão de justiça e de aspiração democrática. É do interesse geral.
Na economia mundial que emerge neste final de século - fundada nos desafios da competição e da produtividade, no conhecimento e na informação, nas vantagens da tecnologia - é fundamental que os esforços da abertura e modernização dos países em desenvolvimento encontrem a necessária contrapartida de reciprocidade nos países desenvolvidos. As mesmas nações que se beneficiam da liberalização dos fluxos comerciais e financeiros não podem ignorar que o protecionismo aberto ou disfarçado, a discriminação, o unilateralismo, a voracidade especulativa dos mercados contribuem para debilitar as relações econômicas, em detrimento de todos.
No plano político, nossos objetivos de paz e justiça exigem que se avance na reforma das Nações Unidas e no fortalecimento do Conselho de Segurança, que deve constituir o centro do sistema de segurança internacional, imprescidível para dar legitimidade às ações da comunidade internacional em favor da paz.
A crise do Kosovo deixa-nos a lição de que a paz duradoura passa necessariamente pela ONU. E a tragédia do Kosovo
revivendo os horrores da pureza racial nazista e da morte de civis inocentes nos bombardeios de alta tecnologia, infelizmente
se é o mais visível dos problemas da paz no mundo, não é o único. Basta olhar para o Oriente Médio, para Angola, para o Timor Leste, para vermos ampliar-se a lista de preocupações.
Sras. e sres, a União Européia vem ao Rio fortalecida em sua obra de integração pelos recentes avanços na adoção de uma moeda única e na construção de uma política externa e de segurança comum. Esses avanços confirmam a União Européia como parceiro absolutamente indispensável, capaz de contribuir para um maior equilíbrio das relações internacionais. A América Latina e o Caribe têm condições para participar plenamente desse novo cenário.
Somos uma região de vocação democrática e pacífica, de sociedades multirraciais em que a coexistência de culturas, etnias e religiões tem sido uma fonte de criatividade, de síntese e de enriquecimento. Em nossas sociedades, o elemento europeu convive e se mistura com outras influências importantes, como a indígena e a africana. Construímos culturas e padrões de civilização originais, mas a consciência disso em hipótese alguma relativa nossa adesão a princípios e valores universais.
América Latina, Caribe e Europa têm consciência de que a cultura é algo que pode unir sem sufocar a diversidade. Em um mundo no qual as distâncias desaparecem e os contatos humanos se vêem favorecidos pela facilidade de comunicação, mais do que nunca o pluralismo é um patrimônio a ser preservado.
No plano da segurança, somos a região do mundo que, proporcionalmente, menos recursos gasta em armamentos, e a primeira a constituir-se como zona livre de armas nucleares.
Cultivamos uma tradição de paz e de respeito ao direito internacional. Recentemente, dois países irmãos da América do sul - Equador e Peru - souberam, pela via da negociação e do entendimento, pôr termo definitivamente a seus litígios territoriais.
No terrenos econômico, há muito deixamos para trás a paralisia da década perdida. Para nossa região, os anos 90 têm sido uma década de vitórias: vitórias da democracia, vitórias da estabilidade econômica, vitórias na luta contra as turbulências financeiras, vitórias das transformações e reformas que nos dão rumo firme e confiante. Vitórias contra a inflação, contra o atraso, contra estruturas arcaicas que impedem a justiça e o progresso social. Falta vencer, ainda, a batalha do desemprego. Nela estamos empenhados.
Construímos uma inserção mais competitiva nos fluxos econômicos globais. Fizemos uma opção decidida pela integração regional como ferramenta de competitividade e desenvolvimento - campo em que o exemplo europeu tanto nos tem inspirado.
Anima-nos a certeza de que os diferentes processos de integração em curso na América Latina e Caribe - o Mercosul, a Comunidade Andina, o Caricom, o sistema de Integração Centro-Americano - continuarão a ser um dos principais fatores de desenvolvimento da região e a enriquecer nosso relacionamento com os parceiros extra-regionais.
Tenho o prazer de assinalar que os Chefes de Estado e de governo dos países do Mercosul e da União Européia acabamos de chegar a um entendimento que nos permitirá iniciar negociações para estabelecer uma associação inter-regional política e econômica, que incluirá a liberalização de todo o comércio entre as duas regiões. Marcharemos juntos, sem concessões unilaterais nem discriminações de setores produtivos.
Sras. e srs., temos uma ampla agenda a tratar nestes próximos dois dias. Vamos discutir as grandes questões da atualidade internacional e os principais temas específicos do relacionamento entre as duas regiões nos campos políticos, econômico-social e cutural. Vamos definir ações e instrumentos diversos de diálogo e cooperação. Vamos dar o exemplo de um processo decisório aberto e participativo, baseado numa ampla discussão de nossos diversos interesses e na convergência de nossas visões de mundo.
Como lhes disse, essa é uma tarefa ambiciosa. Mas o que está em jogo é fundamental. É a realização dos valores nos quais acreditamos.É o desenvolvimento de uma prosperidade compartilhada, buscando diminuir as diferenças de renda e de qualidade de vida entre nossas economias e nossos povos. É a construção de uma ordem internacional legítima, onde a paz e a justiça caminhem da mãos dadas. É o esforço para prevenir os efeitos danosos dos vendavais especulativos sobre as finanças nacionais.
No mundo atual, nenhum país ou grupo de países pode assumir o risco do isolamento. A ilusão do fechamento é o caminho mais certo para a estagnação e a irrelevância.
Com o encontro de hoje, América Latina, Caribe e Europa estão demonstrando a sua determinação de trabalhar juntos. Sejamos sócios. Sejamos parceiros nesse projeto fascinante que já é o século 21. Muito obrigado." Fim





