Washington, 28 (AE) - Antes mesmo de o presidente Bill Clinton iniciar seu oitavo e último discurso anual ao Congresso, na noite de quinta-feira, seus adversários republicanos estavam com a resposta engatilhada. O governador do Texas, George W. Bush, candidato favorito dos conservadores para disputar a Casa Branca em novembro próximo, disparou o primeiro tiro apenas alguns minutos depois de Clinton ter reivindicado da tribuna de honra da Câmara de Representantes o crédito político pela inigualável bonança que os Estados Unidos alcançaram durante os mais de sete anos de seu governo numa fala de 89 minutos durante a qual declarou os americanos "afortunados por viverem num momento da história (no qual) nunca antes nossa nação desfrutou, ao mesmo tempo, de tanta prosperidade e progresso social com tão poucas crises internas ou ameaças externas".
"A litania de programas de gastos que o presidente anunciou esta noite prova meu argumento de que se você deixar grandes somas (como saldo fiscal no orçamento federal) em Washington, o dinheiro será gasto pelo governo", disse Bush. "A proposta de corte de impostos ( de US$ 350 bilhões) do presidente é muito pequena e não ajudará a economia a crescer ou a tornar o código tributário mais justo", afirmou o candidato republicano, que poderá ter a aura de invencibilidade com que iniciou sua campanha novamente golpeada no início da semana pelo senador John McCain, em New Hampshire, na primeira disputa de votos da fase preliminar da campanha.
Outros líderes republicanos ecoaram as palavras de Bush, listando mais de 60 iniciativas que Clinton pediu ao Congresso para aprovar em seu último ano na Casa Branca. Mas todos soaram como se estivessem subitamente na defensiva.
A rapidez da resposta orquestrada dos adversários diante de mais uma poderosa exibição de Clinton como mestre do teatro político era esperada em pleno início de uma temporada eleitoral. Mas ela pode ser também um sintoma do temor dos republicanos diante dos sinais de que os americanos, depois de deixarem claro seu repúdio ao presidente pelo seu comportamento pessoal no episódio que levou ao embaraçoso escândalo sexual com Monica Lewinsky parecem mais dispostos a isolar o caso e não penalizar nas urnas, em novembro, o vice-presidente Albert Gore, o herdeiro político de Clinton e provável candidato democrata à sua sucessão.
Se isso for verdade, os conservadores passaram a ter novos motivos de preocupação na noite de quinta-feira. "Clinton projeta, em seu último ano no poder, uma imagem mais saúdável, mais forte e é um líder mais confiante do que era quando assumiu", disse, admirada, a republicana Peggy Noonan, que escreveu discursos para o presidente Ronald Reagan, um ex-ator que presidiu uma revolução conservadora nos EUA utilizando seu talento de comunicador. "Clinton é o presidente que melhor desempenhou o papel público de presidente desde Franklyn Delano Roosevelt", afirmou ela. Por causa do affair Lewinsly, poucos acham que Clinton pode fazer campanha por Gore. Mas o discurso de quinta-feira à noite mostrou como o presidente americano poderá atuar como cabo eleitoral a partir da Casa Branca.
Empenhado em fazer o que estiver a seu alcance para ajudar Gore nas eleições, porque do triunfo do vice-presidente depende em grande parte suas chances de reclamar um legado pelos seus oito anos no poder, Clinton usou seu enorme carisma e talento oratório para recordar aos americanos os êxitos da administração Clinton -Gore. "Começamos o novo século com 20 milhões de novos empregos, o crescimento econômico mais rápido em mais de 30 anos, a mais baixa taxa de desemprego em 30 anos, a menor taxa de pobreza em anos, o mais baixo desemprego da história entre americanas de ascendência africana e hispânica e o primeiro biênio de saldo orçamentário em 42 anos", disse Clinton.
Ele lembrou também que os EUA atingirão no mês que vem o mais longo período de expansão do PIB de seus quase 224 anos de história e procurou esvaziar os ataques republicanos sobre a decadência moral do país afirmando que a revolução americana está sendo reforçada por um renascimento do espírito na nação. "A criminalidade caiu em 20%, a seu ponto mais baixo em 25 anos; os nascimentos de crianças filhas de mães adolescentes vêm se redunzindo há sete anos e as adoções aumentaram 30%". Ele informou ainda que o número de pessoas dependentes da assistência pública está no seu nível mais baixo. "Americanos, o estado da união é mais forte do que nunca e, como sempre, o crédito pertence ao povo americano".
Interrompido por aplausos mais de uma centena de vezes, Clinton conclamou o país a usar esse momento inigualável de fortuna nacional para alcançar um progresso econômico e social ainda maior e mais compartilhado, e apresentou uma miríade de antigas e novas propostas atraentes para os eleitores, todas elas calibradas para dar munição de campanha em geral e para grupos de eleitores que poderão decidir a margem da vitória numa disputa apertada. Ele ofereceu, por exemplo, iniciativas para facilitar a compra de remédios pelos idosos, propôs a expansão do programa nacional de renda mínima que já beneficia mais de 4 milhões de pessoas. Pediu a ampliação de bolsas de estudo e outras formas de subsídio à educação nos vários níveis e mais cobertura de seguro médico para crianças protegidas por programa estaduais de saúde.
Contra a proliferação das armas de pequeno porte que alimentam a violência e a criminalidade, ele propôs a criação de uma carteira especial de identidade para proprietários de armas de fogo.
Tendo, nos últimos anos , surrupiado várias bandeiras dos republicanos, como a reforma do sistema de assistência pública garantida aos pobres, a iniciativa estratégica de defesa em versão reduzida do programa "Star Wars", a reforma do serviço do imposto de renda e o princípio do equilíbrio fiscal, e incorporado todo eles ao que é hoje a agenda centrista do Partido Democrata, Clinton praticou mais um furto político na noite de quinta-feira ao reivindicar como sua uma proposta de inspiração republicana de anulação de uma cláusula do código tributário que onera os casais que fazem declaração conjunta de imposto de renda. Mas, como em quase todas as outras iniciativas que apresentou, a proposta foi calibrada para fixar também um contraste com os republicanos, beneficiando primordialmente as famílias de renda mais baixa.
O líder americano falou muito pouco em política externa, um tema que não está na campanha presidencial. Ele pediu ao Congresso para aprovar um ajuda adicional de US$ 1,3 bilhão à Colômbia, mas não mencionou o plano de perdão de 100% dos débitos oficiais dos países pobres mais endividados que apresentou no ano passado.
Muitas, provavelmente a maioria dessas propostas, serão ignoradas, modificadas ou desfiguradas pelo Congresso. Mas todas têm potencial para dar a Gore bons argumentos durante o longo e duro embate que o vice-presidente travará nos próximos meses para manter a Casa Branca nas mãos dos democratas e tentar reconquistar o controle pelo menos da Câmara de Representantes, onde os conservadores têm uma maioria de apenas 10 votos em 435 cadeiras.

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