Brasília, 14 (AE) - O "discurso da virada" do PSDB, feito hoje pelo líder do partido na Câmara, Aécio Neves (MG), no plenário, pareceu uma cópia do texto de abertura da 51ª Legislatura, feito há dois meses pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). Aécio foi escolhido como porta-voz dos tucanos para ler em plenário uma espécie de reedição da "agenda positiva" anunciada por Temer - onde as prioridades são dar andamento às reformas política, tributária e do Judiciário.
A semelhança com o discurso de Temer foi frisada pelo próprio. "Fico feliz com o paralelo nas idéias demonstradas pelo PSDB com a nossa agenda positiva", disse. Mais irônico, o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), afirmou ter tido a impressão que Neves estaria "relendo" o discurso de Temer. "O que me alegrou, vendo assim tantas afinidades."
Neves usou no discurso com frases de efeito, como "A crise, dolorosa e fugaz, cederá vez à aurora do futuro". O texto, previamene distribuído, tinha 24 páginas. Na única alusão ao comportamento dos aliados, Neves fez elogio: chamou-os de "valorosos".
No plenário, não havia mais que 30 pessoas assistindo ao discurso, entre parlamentares e outros tucanos, entre eles o governador do Mato Grosso, Dante de Oliveira, alguns senadores e ministros. Estavam ausentes os ministros tucanos da Saúde, José Serra, e das Comunicações, Pimenta da Veiga, articulador oficial do governo.
Os ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Celso Lafer, da Educação, Paulo Renato, e da Ciência e Tecnologia, Luiz Carlos Bresser Pereira, assistiram ao discurso e saíram rapidamente, sem dar delcarações à imprensa. Da base aliada, apenas Lima prestigiou o discurso. Na agenda anunciada por Neves, só não entrou na lista de prioridades a formação das comissões parlamentares de inquérito (CPIs). "O PSDB não vai anestesiar suas potencialidades em nome de questões laterais como as CPIs", afirmou. Segundo o líder do PSDB na Câmara, o partido vai partipar da CPI do Judiciário e dos Bancos, no Senado. "Mas basta que as CPIs estejam por lá", afirmou. A oposição está tentando instalar uma CPI de investigação dos bancos também na Câmara.
Neves afirmou que o discurso veio na hora de "calorosamente" apoiar os atos do presidente Fernando Henrique Cardoso "para reverter essa momentânea queda de popularidade". Para o líder tucano, reverter seria fácil. "Bastaria retornar ao passado de irresponsabilidade, gastar mais do que se arrecada", afirmou.
Mesmo frisando o apoio a Fernando Henrique, o líder tucano reafirmou a posição do partido em não apoiar a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal (CEF). "Antes, essas instituições devem passar por profundas transformações", justificou.
A única cobrança no discurso foi de uma maior disponibilidade de crédito, não só do BB, da CEF e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas, principalmente, dos bancos estrangeiros instalados no País. "Tem de ser alterada a política de atração de novas instituições financeiras, estimulando-se as que estão aqui para conceder efetivamente mais créditos aos setores produtivos", frisou.
O discurso do líder do PSDB, para um deputado da oposição, acabou sendo fechado com um recado para a própria base aliada: "Não é suficiente anunciar boas intenções; não basta apenas denunciar mazelas, sem romper com o Estado corporativo, injusto e cartorial que desserve às maiorias."

mockup