Curitiba - Quando Josiane Bougers parou de estudar, aos 13 anos, seu registro civil masculino já contrastava com sua aparência, nitidamente feminina. Discriminada por colegas, educadores e até por familiares, a então adolescente encontrava na escola, que supostamente deveria protegê-la, um ambiente cada vez mais hostil.
''Os alunos sempre fazem piadinhas. Cheguei a apanhar. As pessoas falavam muitas coisas que não eram verdade. [A discriminação] Às vezes acontecia até com os professores. Se eu não sabia uma matéria, eles eram secos, não davam atenção. Existia diferença em relação aos outros'', revela.
O caso mais grave, segundo ela, é uma das últimas lembranças que tem do colégio. ''Uma vez ao sair da escola um grupo de alunos me seguiu e me deu uma surra. Não fiz nada. Fui para casa chorando, com medo.''
Histórias como a de Josiane não são casos isolados. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, as trans representam a parte mais exposta da diversidade sexual e, por isso, são o grupo que mais sofre. ''A grande violência é que muitas vezes elas têm o acesso [à educação], mas, por não serem respeitadas na sua identidade de gênero, acabam deixando a escola. São poucas as que superam essa maratona de violações de direitos humanos'', diz.
O bullying também fez a hoje esteticista Ariadne França, de 27 anos, largar a escola por dois anos. Segundo ela, o apoio dos pais foi fundamental para que, mesmo com o preconceito por parte dos colegas, seu processo de transição ocorresse de forma um pouco mais tranquila. ''A minha família ficou do meu lado o tempo todo, o que sei que não é o caso da maioria. Eu conversava muito com os meus pais; sempre contava o que acontecia na escola'', revela.
Em um dos episódios, a mãe de Ariadne decidiu conversar com a direção e com os educadores. Na ocasião, porém, eles demonstraram não estar preparados para lidar com a diversidade. ''Um professor chegou a falar para ela que, infelizmente, eu estava sujeita a isso mesmo [bullying]; que minha mãe precisava se conformar; ficar bem quieta. Acredita?'', relata a esteticista.
No caso de Josiane, os traumas físicos e psicológicos a levaram a sair de casa e a começar a trabalhar, antes mesmo do término do ensino fundamental. ''Tive que sair de casa para realmente viver em paz comigo mesma. Também não queria que a minha mãe [hoje falecida] sofresse.''
Ela trabalhou como doméstica, na casa de uma família, onde se sentia mais protegida. ''Mas aí minha ex-patroa descobriu que eu era trans e me mandou embora. Ela falou que tinha filhas e achou que eu pudesse fazer alguma coisa.''
Sem estudo e com poucas chances de conseguir um emprego formal, foi induzida à prostituição. Hoje com 30 anos, atende aos clientes apenas em casa, ''para não ficar tão exposta'', e planeja mudar de área. ''Aprendi a cozinhar na casa de família onde trabalhei e me apaixonei por gastronomia. Acho que pode ser algo por aí.''
Apesar do apoio que diz ter recebido, Ariadne França também optou por sair de casa, aos 21 anos. ''Nessa época comecei a trabalhar 'por anúncio, na internet', para ganhar a vida, sabe? Aí meu pai viu, me pegou pelos cabelos e me levou de novo para casa. Fiquei lá até os 23. Como já sou adulta, preciso correr atrás das minhas próprias coisas, me virar'', diz.
De volta à escola, concluiu o ensino médio, fez curso técnico e, ''depois de muita luta'', conseguiu arranjar um emprego na área. ''Já fiquei dois anos desempregada e me sacrifiquei muito. Quando surge uma oportunidade, você precisa agarrar com tudo. Sei que não é qualquer pessoa que consegue.''

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