Bogotá, 02 (AE-NEWSWEEK) - Ninguém confundiria os membros da quadrilha dos "Nichos" da Colômbia com Pablo Escobar. Ao contrário do chefão do cartel das drogas de Medellín - um homem espalhafatoso, que viajava protegido por um exército de guarda- costas até ser morto a tiros pela polícia, em 1994 -, esses homens vivem modestamente nas cidades colombianas da costa do Pacífico. Trabalhando como comerciantes esporádicos e donos de lanchas, eles se vestem de maneira simples (sem anéis de diamante), dirigem carros normais (nada de limusines) e procuram chamar o menos possível a atenção (nenhum carro-bomba). Mas, na semana passada, receberam mais atenção do que jamais imaginaram: às 3 horas do dia 24, 24,5 mil homens da polícia colombiana, ao lado de agentes da Drug Enforcement Agency (DEA, órgão de controle de drogas dos EUA), invadiram várias casas e prenderam 19 membros dos Nichos. Autoridades do setor antidrogas disseram que a quadrilha usava a Internet e telefones por satélite para coordenar remessas de cocaína da Colômbia para os EUA e Europa. A receita da quadrilha é de US$ 100 milhões por ano.
O momento da incursão foi impecavelmente programado. Ocorreu apenas dois dias antes que os EUA declarassem a Colômbia um parceiro pleno na guerra contra as drogas pela primeira vez desde 1995. O relacionamento da Colômbia com os EUA deteriorou-se no governo do presidente Ernesto Samper, cuja campanha teria supostamente recebido US$ 6 milhões do cartel de Cali. Andrés Pastrana substituiu Samper como presidente em agosto e começou então uma segunda lua-de-mel. A cooperação bilateral está aumentando, crescem os confiscos de drogas e Washington destinou quase US$ 290 milhões para a aquisição de helicópteros, armas e outros equipamentos para a guerra da Colômbia contra as drogas. "Nosso relacionamento com os EUA está mais estreito a cada dia", disse o general Rosso José Serrano, chefe da Polícia Nacional, à Newsweek. "Está melhor do que nunca."
Apesar disso, a guerra contra as drogas na Colômbia nunca foi tão difícil. Como explicar, por exemplo, o fato de que o país ainda seja a fonte de 80% da cocaína mundial, de 62% da heroína confiscada nos EUA e de uma produção de folha de coca maior que a do Peru e Bolívia juntos? Uma das razões podem ser os Nichos. Com a destruição dos cartéis de Cali e de Medellín nos últimos cinco anos, as autoridades afirmam que surgiram mais de cem novos grupos de traficantes, cada vez mais difíceis de ser identificados. Compostos em grande parte de profissionais formados em universidades, é mais provável que esses novos grupos carreguem computadores portáteis e telefones por satélite em vez de pistolas e fuzis automáticos. Em vez de tentarem controlar todos os aspectos do tráfico de drogas, como seus predecessores, os novatos concentram-se em "nichos" específicos do comércio e ligam-se a outros grupos para realizar apenas algumas remessas. Isso torna o relacionamento entre os traficantes extremamente fluido e difícil de vigiar. E, como eles mantêm seu dinheiro em contas no exterior, ficam poucos vestígios de sua presença na Colômbia.
Contudo, eles estão sendo notados no exterior. Os novos cartéis estabeleceram ligações com máfias da Europa, América do Sul e Caribe. Fontes dos serviços de inteligência afirmam que os grupos colombianos se ligaram agora ao crime organizado russo, integrado principalmente por ex-membros da KGB, para abastecer o florescente mercado europeu. No mês passado, as autoridades prenderam um ex- oficial da Marinha Mercante da Colômbia, acusado de possuir documentos russos e microfilmes vinculados a uma remessa de 1,5 tonelada de cocaína, confiscada pelo serviço secreto russo. A prisão quase coincidiu com uma apreensão de 5 toneladas de cocaína num barco com destino a Houston; os 24 russos a bordo foram presos. Fontes da inteligência acreditam que as máfias russas, com seu crescente controle dos bancos do Caribe, ajudem também os colombianos a lavar o dinheiro.
Mesmo assim, as alianças mais preocupantes ainda estão dentro do país. No sul da Colômbia, guerrilheiros marxistas protegem os campos e os laboratório de coca, em troca de um imposto de 10% sobre as vendas da droga. Dezenas de pilotos e policiais colombianos foram mortos em operações de pulverização e interdição de drogas em território da guerrilha.

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