Londrina – Afinal, quantos moradores de Londrina são pobres? A sociedade e a administração municipal têm pelo menos duas respostas em documentos elaborados para nortear ações de combate à vulnerabilidade social. E os dois números não são nada parecidos, ainda que ambos sejam baseados nos dados colhidos pelo Censo Demográfico 2010.
O Atlas Brasil 2013, um estudo sobre o desenvolvimento humano dos municípios comandado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Fundação João Pinheiro (ligado ao governo de Minas Gerais) e com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), fundação pública federal vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, aponta que o município tem 16.569 pobres, ou 3,27% da população.
"O objetivo do Atlas Brasil 2013 é instrumentalizar a sociedade. A democratização de informações no âmbito municipal contribui para o fortalecimento das capacidades locais, o aprimoramento da gestão pública e o empoderamento dos cidadãos brasileiros por meio da ampliação do conhecimento sobre a sua realidade", diz um trecho do texto de apresentação do documento.
O Perfil Socioeconômico - conjunto de dados organizado pela Secretaria Municipal de Planejamento e abastecido por outras secretárias, cuja última versão foi lançada em 2012 - informa que o município tem 74.650 pessoas – ou 14,7% - vivendo abaixo da linha da pobreza. O Perfil, publicado na íntegra no site oficial da Prefeitura, se apresenta "com o objetivo, a partir da sistematização de dados históricos, socioeconômicos, estatísticos e ambientais, de oferecer subsídios para pesquisadores, estudantes, empreendedores e cidadãos que, de forma geral, necessitam de informações referentes à nossa cidade".
Assim como no cálculo do Atlas de Desenvolvimento Humano, os números que abasteceram a estatística municipal foram informados pela população no recenseamento. A diferença dos dois números – 58.081 – equivale à população de Rolândia em 2010.
Na classificação usada pelas autoridades de qualquer esfera, uma família pobre é aquela que tenha uma renda de até R$ 140 mensais per capita. Um exemplo: o pai assalariado, com rendimento de R$ 678, a mãe dona de casa, e mais três filhos no mesmo domicílio. No caso de extrema pobreza, com a mesma renda, o casal teria que ter seis filhos.
A mesma disparidade nos dois documentos também é observada em relação ao número de extremamente pobres: a diferença no contingente de extremamente pobres é de 4.864 pessoas, população maior que 95 municípios paranaenses. A taxa no Atlas é de 0,74%, ou 3.749 pessoas, contra 1,7%, 8.613 pessoas, no Perfil Socioeconômico.
Se o critério para considerar alguém pobre no município é beneficiá-lo com algum programa oficial de transferência de renda, o número de londrinenses nesta situação é bem maior que o apontado pelo índice do Atlas de Desenvolvimento, mas muito menor do que o informado pela Secretaria Municipal de Assistência Social ao Perfil Socioeconômico do Município.
Segundo a secretária da pasta, Télcia Oliveira, um total de 43.492 londrinenses são beneficiados pelo principal programa de transferência de renda, o Bolsa Família. O grupo que recebe o benefício representa 8,4% da população do município em 2012 (dado mais recente), pouco mais da metade dos pobres publicado no Perfil, que é de 14,7%. Se comparado com o índice do Atlas, de 3,27%, o número de pessoas beneficiadas é quase três vezes maior. Outros 13 mil londrinenses, idosos ou deficientes, recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC) da Assistência Social. Além disso, outras 2,5 mil pessoas recebem o cupom alimentação de R$ 65, um benefício temporário.
No chamado Cadastro Único, em que o teto de renda é de três salários mínimos, estão 40 mil famílias, ou 122,8 mil pessoas, pouco menos de um quarto da população. Nesta faixa de renda, o cidadão tem direito aos benefícios de 16 programas sociais, que engloba desde o direito a ingressar no Minha Casa Minha Vida até a isenção na taxa de inscrição do vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A cada dois anos, quem está na lista deve passar por recadastramento.
Télcia lembra que o número de pessoas que são beneficiados pelos programas de transferência de renda e de proteção social é ascendente em Londrina. "Continuamos buscando famílias que têm direito aos programas e por algum motivo ainda estão fora deles." Ela não quis comentar a divergência do número da prefeitura e do Atlas, mas disse que ficou satisfeitas com as medições do Ipea, que informam uma forte queda da pobreza e da extrema pobreza em Londrina. Em 1991, segundo o Atlas, Londrina tinha 14,8% de pobres em 1991, enquanto em 2010, o número havia caído para 3,27%. A extrema pobreza, insignificante em 2010 (0,74%), era de 3,1% em 1991. "São números que reforçam a ideia de que estamos no caminho certo e que precisamos fortalecer as políticas públicas de assistência social."
Procurado pela reportagem, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento indicou o Ipea para comentar os cálculos. A assessoria de imprensa do instituto informou que o coordenador do Atlas 2013, Marco Aurélio Costa, não poderia atender às reportagens. Um técnico do instituto ouvido pela FOLHA e que não quis se identificar disse, no entanto, que "não entendia tamanha diferença" entre os dois dados.
Mesmo com um número de pobres muito menor do que o usado pela administração municipal, a classificação de Londrina no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal foi considerado decepcionante: apenas o 6º na lista estadual e a 145ª posição no ranking nacional.

Imagem ilustrativa da imagem Discrepâncias marcam estatísticas sobre pobres



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