Gaya ia ser mamãe. Sua tutora, Ariana Carli, aguardava com grande expectativa o momento da chegada dos filhotes. Sete estavam previstos, após um tranquilo período de gestação. Mas, em fevereiro de 2026, no momento do parto, a cadela da raça Husky pariu apenas um. Ao perceber que o tempo passava e os outros seis não vinham ao mundo, Carli decidiu levar Gaya ao hospital veterinário. “Quando a dirofilariose canina foi descoberta na Gaya, já estava em grau avançado, mas a vida dela não correria risco se fosse feito o tratamento”, revela a tutora.
Momentos como a gestação e o nascimento dos filhotes de um animal da família podem ser únicos e especiais, capazes de alimentar sonhos e planos nos tutores. Mas, em diversos casos, uma ida ao veterinário por razões habituais, como os partos, pode revelar uma doença grave escondida dos olhares mais atentos. A partir daí, a corrida contra o tempo para a solução do problema é sufocante e os sonhos ficam em segundo plano. “O medo de perdê-la para essa doença foi grande, mas com o diagnóstico a tempo conseguimos realizar o protocolo correto. Gaya teve uma ótima resposta ao tratamento e hoje ela está muito bem”, conta Carli.

A dirofilariose canina, popularmente conhecida como “verme do coração”, é uma patologia parasitária grave provocada pelo nematódeo Dirofilaria immitis, um verme cilíndrico que, na fase adulta pode se alojar principalmente nas artérias pulmonares e no lado direito do coração, dificultando a circulação do sangue e sobrecarregando o funcionamento desses órgãos. Sua evolução é silenciosa.
Mas, o problema vai além da importância veterinária, sendo necessária uma abordagem dentro do conceito de Saúde Única, pois envolve a interação entre animais, humanos, mosquitos e meio ambiente, apresentando potencial zoonótico.
Vetores
Embora acometa em grande parte os cães, gatos também são suscetíveis, mas com menor intensidade e efeitos. Humanos podem ser infectados ocasionalmente, mas são considerados um hospedeiro acidental, no qual o parasita normalmente não completa seu ciclo. Além disso, ele não é transmitido diretamente de um cachorro a outro, ou a uma pessoa. Esse processo necessita da participação de um antagonista em comum a humanos e animais: os mosquitos.
Apesar de ser mais comum em regiões quentes e úmidas, como as áreas litorâneas, a dirofilariose pode ocorrer em praticamente qualquer lugar onde existam mosquitos transmissores. Alguns deles são pragas urbanas difíceis de controlar e um verdadeiro terror para a saúde pública e para a vida de muita gente. Um dos principais, no Brasil, é o mosquito do gênero Aedes spp., transmissor também de males como a dengue, chikungunya e zika. Além dele, há os mosquitos dos gêneros Culex spp. e Anopheles spp., logo, o controle ambiental não é uma proteção apenas à saúde dos animais, mas também à das pessoas.
Ao picar um cão infectado, o inseto hematófago acaba ingerindo as formas jovens do parasita, chamadas microfilárias. Em seu organismo, as larvas se desenvolvem até um estágio conhecido como L3 e aguardam a oportunidade de infectarem outros animais.
A presença de vetores infectados em regiões de grande aglomeração, principalmente em épocas de férias, associada às condições climáticas, favorecem a disseminação da doença. E a desinformação da população compromete a adoção de medidas preventivas.
Indícios e diagnóstico
Ninguém olha para seu cão saudável e pensa que ele possa estar infectado com uma doença grave. Mas, para os tutores, o maior desafio é os cães infectados permanecerem muito tempo sem apresentar sinais que, quando surgem, são discretos. Esse aspecto soturno da doença faz com que a periodicidade de exames clínicos nos animais seja vital, pois é através deles que se detecta a dirofilariose mesmo em estágios iniciais.
Quando surgem os primeiros sintomas, o cão pode ficar amuado, como se o que ele fazia rotineiramente não fosse mais uma tarefa tão fácil. Coisas simples, como passear, viram um desafio. De acordo com Ana Paula Marcos, gestora e responsável técnica do Hospital Veterinário Municipal de Londrina, alguns indícios anunciam a existência da doença. “Um dos primeiros sinais que o responsável pode observar é uma tosse persistente, inicialmente discreta. Também podem aparecer cansaço com atividades que antes eram bem toleradas, intolerância ao exercício, perda de peso ou de condição corporal e fraqueza”. À medida que a infecção progride, o quadro clínico se torna mais grave, com sinais mais evidentes.

O diagnóstico laboratorial envolve exames de sangue que detectam antígenos das fêmeas adultas do parasita. A essa abordagem pode ser acrescida uma investigação da existência de microfilárias. “Dependendo do caso, podem ser necessários exames de imagem, como radiografias de tórax e ecocardiograma, para avaliar o comprometimento pulmonar e cardíaco e determinar a gravidade da doença”, enfatiza Marcos que recomenda, quando um teste der positivo, a confirmação por outros métodos antes de qualquer definição terapêutica.
Avaliações periódicas com realização de exames são cruciais para identificar a doença precocemente e determinar a melhor forma de tratamento. Segundo a American Heartworm Society é recomendado realizar testes a cada 12 meses e administrar preventivos contra dirofilariose todo mês.
Como proteger seu amigo
Prevenir seu cão de ser contaminado pelo verme do coração demanda o uso constante de medicamentos, alguns mensalmente. A ivermectina, a milbemicina oxima, a moxidectina e a selamectina são aliados na prevenção. “É importante destacar que nem todo vermífugo de amplo espectro previne contra a Dirofilaria immitis. O produto deve ser escolhido especificamente para a prevenção da doença, sempre com orientação do médico-veterinário”, ressalta Marcos. “A prevenção deve ser contínua e adequada ao risco de exposição de cada animal. É importante lembrar que a dirofilariose não é uma doença restrita às regiões litorâneas ou aos locais de clima muito quente. No Brasil, existem diferentes áreas de ocorrência da doença, e algumas regiões apresentam prevalências bastante elevadas”, conclui.
O tutor pode contar com produtos específicos de ação repelente como forma de impedir o animal de ser picado. Isolar o ambiente interno com telas nas janelas também ajuda. “A gente tem alguns preventivos que são tópicos, que você aplica no dorso, além de medicação que você consegue fazer por via oral e o uso das coleiras repelentes. A coleira acaba se sobressaindo, por ter um período um pouco mais longo de eficácia”, explica João Marcos das Neves, médico veterinário clínico geral do Hospital Veterinário da Unifil, de Londrina.
E as medidas de prevenção contra o mosquito da dengue, o aedes aegypti, como não deixar água parada no quintal, colocar areia nos pratos de vasos de plantas, manter cisternas e ralos protegidos, são indispensáveis para evitar um ambiente insalubre. Quanto menos vetores, menores as chances da dirofilariose se espalhar por uma região.
Consequências
O impacto da doença na vida do cão infectado se dá em decorrência das inflamações e das lesões provocadas nas artérias pulmonares e nas câmaras cardíacas. Dependendo da gravidade da infecção (carga parasitária) e do tempo de evolução da doença até sua detecção, essas lesões podem se tornar irreversíveis. Mesmo com o tratamento e a eliminação da maior quantidade possível de parasitas, alterações permanentes, como estenoses e outras lesões vasculares ou cardíacas, podem comprometer a qualidade de vida. A dirofilariose pode ocasionar hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca e a síndrome da veia cava.
Um dos desfechos para esta doença é o pior possível para o animal, dependendo do estágio em que for detectada. “Quanto mais cedo a gente faz o diagnóstico, menor a quantidade de vermes adultos. Assim, com a morte desses vermes, a chance de acontecer um tromboembolismo é menor. Então, a chance de óbito no começo é muito menor. Em casos muito avançados, a chance de óbito acaba sendo mais frequente”, diz Neves.
Meu cão tem dirofilariose, e agora?
Quando o veterinário revelou o diagnóstico de dirofilariose para Carli, o temor pela vida de Gaya foi imenso. E a situação de sua recente maternidade não ajudava. “Ela estava amamentando e não poderia tomar os remédios. Fomos acompanhando ela até o desmame, que aconteceu com 45 dias, com os filhotes começando a comer só ração, para depois iniciar o tratamento”, comenta. “A cabeça fica a mil nessa hora”.

Ela diz ainda que o tratamento inclui a aplicação de uma vacina e que aguardava uma oportunidade de adquiri-la, não só para Gaya, mas para os outros cães da casa também. “Precisamos da vacina, tanto para completar o tratamento dela como para prevenir que os outros venham a pegar a doença”, salienta. Porém, cada dose, aplicada anualmente, tem um preço que varia conforme o peso do animal. Só para Gaya, ficava em média R$ 480 por aplicação. “O tratamento terminou em agosto, porém ela precisa tomar essa vacina todo ano”, conclui.
“Um ponto fundamental durante o tratamento é a restrição de exercícios”, relata Marcos, que recomenda repouso. “O animal infectado deve evitar atividades físicas intensas desde o diagnóstico, principalmente durante o período de eliminação dos vermes, porque o esforço físico pode aumentar o dano causado pela doença e, durante a morte dos parasitas, aumentar o risco de complicações pulmonares, incluindo o tromboembolismo”.
De modo geral, o tratamento é lento e muito longo, e nele há um gasto significativamente superior aos custos da prevenção. Isso acontece não apenas pelo valor das medicações, mas também pela necessidade de cuidados contínuos. Frequentemente são necessários exames laboratoriais periódicos para monitorar a evolução clínica, bem como exames de imagem, para verificar a presença de alterações cardíacas secundárias à infecção, e internações para administração de medicamentos. E ainda há os exames complementares e o acompanhamento periódico por um longo período.
Além disso, uma vez infectado, o cão pode não se livrar definitivamente dos parasitas, sendo necessário monitorar a saúde do animal pelo resto de sua vida. O tratamento no Brasil, onde a melarsomina não é permitida, tem suas limitações. “Para ser sincero, no Brasil o tratamento acaba sendo bem mais limitado. Muitas vezes, você não consegue eliminar o parasita completamente, mas consegue tratar e evitar uma piora no quadro, funcionando mais como um controle”, revela Neves.
A antibioticoterapia, por meio da doxiciclina, faz parte da abordagem de controle. A relação simbiótica da bactéria Wolbachia com a Dirofilaria immitis a torna essencial para o ciclo e a reprodução do verme. Se a Wolbachia for erradicada, a Dirofilária se torna estéril, acarretando uma diminuição da carga parasitária.
Remoção cirúrgica
A intervenção cirúrgica é feita quando se tem uma quantidade alta de vermes adultos no coração e nos grandes vasos, ocasionando a síndrome da veia cava. Nesses casos, há a necessidade de remover os parasitas antes que comprometam o fluxo sanguíneo e causem uma insuficiência cardíaca grave e até morte súbita. A remoção dos vermes deve ser realizada por uma equipe capacitada. Após o procedimento, ainda é necessário o acompanhamento veterinário para avaliar a resposta à terapia e se houve alterações cardíacas e pulmonares consideráveis.
Vermes podem chegar a 31 centímetros
Ao picar um cão, o mosquito infectado deposita as larvas na pele, que “mergulham” pelo orifício da picada e migram pelos tecidos subcutâneos e musculares (evoluindo para o estágio L4) até chegar à circulação.
Dali fixam-se nas artérias pulmonares e no lado direito do coração, onde se tornam vermes adultos e reprodutores, cujos espécimes machos possuem de 12 a 20 cm de comprimento. Já as fêmeas adultas medem entre 25 a 31 cm de comprimento e são vivíparas. “Em exames de raios X ou ecocardiogramas, é possível perceber o coração aumentado, e no ecocardiograma você vai conseguir observar as larvas adultas na imagem”, afirma Neves.
A quantidade também assusta. Enquanto em humanos os vermes não completam seu ciclo, em gatos, a doença costuma ter pouco impacto, com uma carga parasitária de apenas dois ou três vermes adultos completando o ciclo. Já nos cães, a carga parasitária média é de 15 vermes, mas esse número pode variar de 1 a 250. A ideia de que algo em torno de 50 vermes de 20 a 30 centímetros se alojem no coração de seu cão é digna de filmes de terror.
A dirofilariose através da História
Os primeiros relatos de vermes compatíveis com a dirofilariose em cães remontam ao século XVII, mas as primeiras descrições da enfermidade na literatura científica começaram a surgir em meados do século 19. Um dos primeiros registros da doença em cães apareceu nos Estados Unidos, no periódico científico The Western Journal of Medicine and Surgery, em 1847. E um dos primeiros informes a respeito da infecção em gatos foi realizado pelo brasileiro Lauro Pereira Travassos, em 1921, no periódico Brasil-Medical.
Sua introdução no Brasil não é conhecida com precisão. Ela pode ter ocorrido através da importação de cães domésticos trazendo o parasita, que encontrou terreno fértil com o clima quente e a presença abundante de mosquitos transmissores. Os primeiros casos de Dirofilaria immitis em humanos no Brasil foram relatados em 1878, pelo médico Antônio José Pereira da Silva Araújo, na Bahia, e em 1887, por Pedro Severiano de Magalhães, em um menino no Rio de Janeiro, que apresentava um parasita macho e uma fêmea no ventrículo direito.
O médico e naturalista norte-americano Joseph Leidy apresentou à Academy of Natural Sciences of Philadelphia um verme encontrado no coração de cães. Ele o batizou, em 1850, como Filaria canis cordis, e, posteriormente, classificou o parasita como Filaria immitis.
No início do século 20, os pesquisadores italianos Giovanni Battista Grassi e Giovanni Noè conseguiram demonstrar, por meio de experimentos, o ciclo completo da Dirofilaria. Eles provaram que o mosquito ingere as microfilárias ao picar um cão infectado; que as larvas se desenvolvem no organismo do mosquito até o estágio infectante (L3); e que o mosquito infectado, ao picar outro cão, transmite o parasita, que migra até se fixar nas artérias pulmonares e no coração.
Os parasitologistas franceses Alcide Railliet e Auguste Henry propuseram, em 1911, o gênero Dirofilaria, estabelecendo a classificação taxonômica atualmente aceita para a espécie: Dirofilaria immitis.
Em razão de sua relevância para a saúde animal e de seu potencial zoonótico, a dirofilariose passou a ser reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma zoonose de interesse em saúde pública a partir da década de 1970.