São Paulo, 19 (AE) - Os dirigentes da indústria automobilística acreditam que os governos do Brasil e Argentina chegarão a um acordo para o regime automotivo do Mercosul. Mas rejeitam que o entendimento inclua excesso de monitoramento na balança comercial dos dois países. "Já que não temos um mercado livre, é natural que haja um acompanhamento, mas deve admitir as variações naturais de um intercâmbio como esse", destacou o diretor de assuntos corporativos da Ford, Célio Batalha.
"O intercâmbio acompanhado, monitorado, é natural num período de transição. Mas é importante adotar um mecanismo de flexibilidade, de variações, que são naturais" - destacou Batalha. Ele disse estar otimista com a perspectiva de um acordo. Segundo o executivo, nos primeiros dias do novo governo argentino, é perceptível que há um razoável conhecimento do comércio dos países e das respectivas estruturas industriais.
Para Batalha, a simples confirmação do encontro "é uma sinalização clara e evidente de que se está a caminho de uma solução". "Há uma clara decisão política de que o Mercosul veio para ficar e isso é importante para os dois países."- completou. O executivo disse que as divergências serão superadas porque "o objetivo maior é o de construir um mercado comum".
O diretor da Ford atribuiu às crises internacionais a lentidão nas negociações do regime automotivo do Mercosul. "Não fosse isso esses acordos já teriam sido fechados porque teríamos fôlego e condições diferentes para encontrar soluções", justificou. Para Batalha, a crise não é do Mercosul. É das economias dos países do bloco, que sofreram com as crises internacionais.
Os representantes dos governos do Brasil e Argentina vão se reunir hoje e amanhã em São Paulo para discutir o regime automotivo do Mercosul. Os dois países fizeram um acordo transitório no comércio de veículos e autopeças por 60 dias e agora vão começar a discutir as regras definitivas, que vigorarão até o final de 2003. Até 29 de fevereiro próximo, prazo do acordo transitório, a alíquota do Imposto de Importação de veículos e componentes vendidos do Brasil para a Argentina e vice-versa será mantida em zero. Para produtos vindos fora do Mercosul, cada país fixou suas próprias alíquotas.
Para carros, o Brasil elevou o Imposto de Importação de modelos extra-zona de 22,5% para 35% e a Argentina manteve a sua em 32,5%. Para componentes importados fora da região, o Brasil manteve a média de 11% de imposto e a Argentina, alíquotas de 2% a 3%. O acordo definitivo prevê a padronização das alíquotas. Se não houver entendimento nos próximos 60 dias, a isenção de tributos no comércio bilateral Brasil-Argentina será suspensa.
A principal divergência está na tentativa do governo argentino de garantir superávit na balança comercial do setor automotivo. Em 1998 as exportações de veículos da Argentina para o Brasil somaram US$ 700 milhões mais do que o total do Brasil para a Argentina. No ano passado, houve superávit próximo de US$ 170 milhões, também em favor da Argentina.
Os argentinos querem manter a diferença porque receiam que as montadoras desloquem as linhas de produção da Argentina para o Brasil em razão da diferença de custos garantida pela diferença cambial. As montadoras que estão na Argentina são as mesmas que estão no Brasil e o comando das fábricas em todo o Mercosul parte do Brasil.

mockup