Curitiba- A polícia do Paraná acredita ter ajudado a desmantelar o maior esquema de desvio de dinheiro de organizações não-governamentais (ONGs) que, teoricamente, teriam caráter assistencial e atuavam em vários estados brasileiros. Ontem, 16 pessoas acusadas de envolvimento nas fraudes foram presas -nove delas, no Paraná. Há indícios de que dois terços das doações feitas ao Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer (GAPC) e à Associação Brasileira de Assistência a Pessoas com Câncer (Abrapec) eram embolsados pelos dirigentes das entidades, o que, em valores, pode ter chegado a R$ 30 milhões somente no último ano.
A operação batizada ''Pharmako'' foi realizada, simultaneamente, no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo como resultado das investigações feitas pela Delegacia de Estelionato e Desvio de Cargas de Curitiba com apoio de outros núcleos policiais. Ex-funcionários das ONGs denunciaram o esquema à polícia paranaense há cerca de um mês. Além das prisões, foram apreendidos, nas sedes das ONGs, R$ 600 mil em dinheiro e R$ 200 mil em cheques, e mais de 20 veículos de luxo, que estavam nas residências dos chefes dessas filiais.
O secretário de Estado da Segurança, Luiz Fernando Delazari, disse se tratar de uma dissidência da Legião da Boa Vontade (LBV), investigada em 2002 pela Procuradoria da República, também, por irregularidades na destinação das doações. Foi a partir desse ano que foram criadas a GAPC e Abrapec -por iniciativa do jornalista de São Paulo, Arnaldo Braz- e que começaram a surgir as filiais.
Para Delazari, as ONGs já foram criadas com a finalidade de enriquecimento ilícito. Muitas das filiais não teriam, sequer, regulamentação jurídica para funcionar. O grupo teria adquirido imóveis luxuosos e veículos importados com o dinheiro desviado, o que pode ser comprovado pelos depósitos nas contas bancárias dos dirigentes e financiamentos feitos em nome dessas pessoas. Apenas parte do dinheiro arrecado era destinado à assistência de pacientes com câncer até para justificar a existência das entidades.
Os bens apreendidos, informou Delazari, ficarão à disposição da Justiça e deverão ser, posteriormente, transferidos para outras instituições para continuidade do atendimento às pessoas que eram beneficiadas. Ele destacou, ainda, que não há indicativo de outras entidades que estejam se valendo de esquema semelhante para desviar doações. Para se proteger de fraudes, os doadores devem procurar conhecer o trabalho e se certificar da idoneidade das instituições (ver info).
Como a maior parte das doações era feita em dinheiro, o grupo tinha facilidade de desviar os recursos. A declaração para a Receita Federal de 2005, aponta o valor de R$ 17 milhões em arrecadações. Esse dinheiro -que corresponderia a um terço das doações- seria usado para compra de cestas básicas e despesas com funcionários e manutenção.
As investigações apontaram que, para cobrança das doações via telemarketing, foi criada a empresa Rinedi, que está em nome de José Idenir, gerente da Abrapec de Joinville (SC). Um dos administradores de todas as filiais seria Waldemar Braz, que coordenava as atividades das contadoras Cristiane Mafra Araújo, em Maringá, e Neuza Pereira de Paula, em São Paulo. Elas seriam responsáveis por maquiar a contabilidade das ONGs.

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