Diretoria do Hugo Simas denuncia ameaças

Polêmica ocorreu por conta de apresentação teatral sobre ocupações nas escolas

Vitor Struck e Isabela Fleischmann
Vitor Struck e Isabela Fleischmann

A polêmica envolvendo mães de alunos do Colégio Estadual Hugo Simas e a diretoria da escola por conta do conteúdo da peça de teatro “Quando Quebra Queima”, vista pelos estudantes em atividade pedagógica dentro da programação do Filo (Festival Internacional de Londrina) na semana passada, ganhou mais um capítulo na tarde desta quinta-feira (7).



Espetáculo “Quando Quebra Queima” foi encenado para estudantes em atividade pedagógica dentro da programação do Filo
Espetáculo “Quando Quebra Queima” foi encenado para estudantes em atividade pedagógica dentro da programação do Filo | Marcos Zanutto
 


Depois que um grupo de mães registrou um boletim de ocorrência no Nucria (Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente) alegando que a peça teria incitado a violência e a depredação do patrimônio público, a equipe de diretores também decidiu registrar um BO alegando que está sofrendo graves ameaças de agressão. 



  

De acordo com a APP-Sindicato (Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná), entidade que representa mais de 100 mil professores da rede estadual, as ameaças vieram em comentários de postagens sobre o ocorrido em uma rede social. “Mata a diretora e os responsáveis pelo evento... Se fizer isso com meus filhos o evento vai ter o fim mais feliz da história do País”, postou um homem. Em seguida, outro homem escreve “certo é pegar um por um e espancar até a morte”, afirmou.



 



Segundo o secretário de assuntos jurídicos da APP-Sindicato em Londrina, Rogério Nunes da Silva, "prints" das postagens foram formalizados no documento na 10ª Subdivisão Policial. “A intenção é proteger a equipe da escola. Este cenário que chamamos de ‘denuncismo’ gera muitos problemas, já temos muitos outros problemas para lidar com a escola e agora essa temática que vem de fora. São pessoas que, infelizmente, não têm conhecimento nenhum sobre como funciona a escola, qual é o projeto pedagógico e a seriedade dos profissionais que estão ali há anos”, avaliou.  


Em outro comentário, o autor sugere que a diretora seja processada por danos morais e receba uma “surra”. “Essa diretora merece um processo por danos contra sua filha e de brinde uma surra.” 


Segundo o secretário, três ligações anônimas em tom de ameaça também foram feitas na própria sede do Sindicato durante esta semana. Questionado se as ameaças foram feitas pelas mesmas pessoas que participaram de um protesto na escola, no final da tarde desta terça-feira (5), Silva avaliou que o objetivo inicial não era expor quem eram os autores. Ele também ressaltou que em nenhum momento a entidade se preocupa com a participação dos pais no processo educacional dos alunos.  


“Não temos desacordo com o direito da família de acompanhar o processo pedagógico, a presença é fundamental, mas não é desta forma que se participa. Mesmo se houver questionamentos sobre determinado conteúdo, se não estiver satisfeito, pode procurar o NRE (Núcleo Regional de Educação) e a associação de pais e alunos, inclusive na formulação de atividades. Alguns conteúdos o pai não tem condições de dizer se são importantes ou não, há um terreno próprio da escola. Parece óbvio de dizer, mas é preciso”, lamentou.  


À FOLHA, o delegado-chefe da Polícia Civil, Osmir Neves, disse que o conteúdo do boletim de ocorrência ainda não foi analisado.


A chefe do NRE de Londrina, Jessica Gonçalves Pieri, que foi citada em um vídeo veiculado pelo deputado federal Filipe Barros (PSL) sobre a peça, disse que até o momento não recebeu nenhum ofício do parlamentar sobre a situação, mas que o núcleo já ouviu a mãe que denunciou o caso, a diretora e a diretora auxiliar. "Agora nós vamos dar os encaminhamentos de acordo com a legislação. A arte não pode ser banida de dentro da escola, só precisamos compreender como é que foi e analisar como isso aconteceu. Foi algo interno, ouvimos as partes e agora vamos tentar fazer essa mediação", explicou.


Segundo Pieri, a análise está sendo feita junto do jurídico da Seed (Secretaria Estadual de Educação). O processo foi encaminhado à pasta no final de quarta-feira (6) e até o início da próxima semana deve ser concluído. "A arte é um tema transversal necessário dentro da escola, obrigatório dentro da disciplina de arte. O que vamos analisar é o planejamento de tudo isso junto da família e do aluno, se houve uma orientação, qual é o objetivo e como vão trabalhar isso." Cabe à chefe do núcleo analisar o lado pedagógico da ação. "Preciso entender se o objetivo da escola foi contemplado e analisar isso à luz do crescimento da educação", disse.


A polêmica começou nesta segunda-feira (4) com a divulgação de um vídeo em que uma mãe critica o conteúdo da apresentação por trazer beijos entre pessoas do mesmo sexo e descontentamento com a atuação da Polícia Militar. Ela afirmou que a filha foi obrigada a assistir sob pena de ter faltas computadas. Em seguida, a diretoria da escola emitiu uma nota em que demonstra preocupação com esses comentários  e aponta que as "temáticas abordadas na apresentação compõem as Diretrizes Estaduais da Educação de várias disciplinas que estão previstas na organização curricular do Ensino Médio do Paraná".  


O espetáculo nasceu no contexto das ocupações das escolas públicas em todo o País por conta da aprovação da PEC do Teto de gastos na saúde e educação (PEC 241), em 2016. 


Nas redes sociais, a mulher recebeu o apoio de muitas pessoas, dentre eles pais de alunos. No entanto, acusações de estar agindo em causa própria visando suposta candidatura nas eleições do ano que vem bem como de ser filiada ao PSL também foram feitas. Outros preferiram publicar um vídeo-release sobre a peça "Quando Quebra Queima".


Nesta sexta-feira (8), às 19h, haverá uma reunião no Sindicato dos Bancários sobre o ato público que será feito em apoio ao Hugo Simas e em favor da liberdade de expressão.


Atualizada no dia 8/11 às 9h44.


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