Rio - O diretor-presidente do laboratório Enila, Márcio D'Icarahy, responsabilizou o químico da empresa, Antônio Carlos Fonseca, pela possível contaminação do medicamento Celobar, que está associado à morte de 22 pessoas. D'Icarahy disse em depoimento à polícia que Fonseca pode ter ''esquecido'' de lavar o equipamento usado em experiência com produtos tóxicos. Esse aparelho teria sido utilizado mais tarde na fabricação do Celobar, medicamento usado como contraste em exames radiológicos.
D'Icarahy prestou depoimento durante quatro horas e confirmou que fez experiências para transformar o carbonato de bário em sulfato de bário princípio ativo do Celobar. O carbonato é usado como veneno de rato e somente quatro laboratórios do mundo têm capacidade de sintetizá-lo. ''A mesma bomba e o mesmo encanamento móvel que eram usados para transportar o Celobar do tanque de produção ao envazamento podem ter servido para dispensar o sulfato de bário que ele (Fonseca) obteve do carbonato de bário'', explicou o delegado Renato Nunes, titular da Delegacia de Repressão a Crimes contra a Saúde Pública (DRCCSP), que investiga o caso.
Segundo D'Icarahy, o químico teria se ''esquecido'' de lavar esses equipamentos, que teriam voltado ao setor de farmácia, onde novos lotes do Celobar foram produzidos. O diretor-presidente do Enila disse que o laboratório tentava sintetizar o carbonato de bário para produzir o sulfato de bário em escala industrial a fim de vendê-lo para outros laboratórios. Hoje, o produto é importado.
Nunes informou que o Enila não tem autorização para produzir insumos. ''Eles podem fazer experimentos químicos. Se conseguissem obter o sulfato de bário a partir do carbonato, pediriam autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para produzi-lo em larga escala'', disse o delegado.
D'Icarahy acusou ainda o químico Antônio Carlos Fonseca de ter sido o único responsável pela liberação do lote 3040068, apesar de o setor de Controle de Qualidade ter alertado para possível contaminação bacteriana nos remédios. ''Antônio Carlos, contrariando parecer do Controle de Qualidade, numa opinão isolada, tomou a atitude de autorizar a liberação do lote. Ele era o chefe do setor'', afirmou Nunes, reproduzindo o depoimento do diretor-presidente do laboratório.
''Antônio Carlos teria dito ao diretor que chegou a beber um frasco do Celobar para garantir sua qualidade.'' O químico foi demitido, segundo D'Icarahy, no dia 23 de maio, mas hoje compareceu ao depoimento acompanhado do mesmo advogado que defende o laboratório, Paulo Henrique Lins. O diretor-presidente garantiu ainda que o sulfato de bário obtido do carbonato foi descartado, mas não apresentou provas.
Antônio Carlos Fonseca chegou à delegacia às 16h30 e até as 18h30 não havia terminado seu depoimento. O delegado informou que ele, D'Icarahy e a farmacêutica Márcia Almeida Fernandes poderiam ser indiciados por falsificação de medicamentos (pena de 10 a 15 anos) e até homicídio culposo (nesse, caso a pena pode variar entre 20 e 30 anos). Márcia Fernandes também deveria depor na noite de ontem.

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