Brasília, 26 (AE) - O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Vicente Chelotti, negou hoje que tenha fitas contendo conversas reservadas do presidente Fernando Henrique Cardoso, de acordo com o sugerido por uma reportagem publicada na edição desta semana da revista "Carta Capital". Chelotti garantiu que os trechos tirados de gravações telefônicas, onde ele aparece como um dos interlocutores, foram tiradas fora de contexto. "Nunca disse que tinha fita do presidente", disse Chelotti. "O que disse é que estava na hora de pararem de dizer que tinha o presidente nas mãos", acrescentou.
Mas o diretor-geral da PF admitiu ter feito algumas afirmações contidas nas gravações, como a que disse que daria "uns tapas no então ministro da Justiça, Iris Rezende". "Eu falei aquilo brincando, pois minha relação com o ex-ministro era de pai e filho, como era uma relação de irmãos a minha e do ex-ministro Nelson Jobim (atual ministro do Supremo Tribunal Federal)", justificou Chelotti.
Hoje, ele exonerou o assessor especial da PF Celso Lemos
que detinha um poder paralelo dentro da instituição, e uma das figuras centrais da reportagem, e mandou abrir inquérito para apurar as origens das gravações.
Os fatos revelados esta semana não são novos, uma vez que grampos internos, vazamento de informações e troca de acusações entre delegados tornaram-se uma constante na PF, nos últimos seis anos, quando assumiu o primeiro diretor civil, o atual senador Romeu Tuma (PFL-SP). Chelotti atribui as gravações publicadas pela revista à Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE), cujo diretor, Carlos Alberto Cavalheiro, ligado a Tuma, foi demitido no fim de janeiro. "O grampo foi feito na DRE", diz Chelotti. "É muita coincidência que uma gravação dessa apareça dias depois da exoneração do Cavalheiro."
Ele nega ainda ter conversado com o delegado Paulo de Tarso Teixeira sobre a viagem às Bahamas, onde foi tentar pistas sobre o dossiê que envolveria Fernando Henrique e outros membros do governo, numa suposta conta bancária nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal do Caribe. "Errei em ter viajado, mas eu só conversei sobre isso com o delegado via relatórios e jamais disse que tinha conseguido qualquer coisa", afirmou Chelotti.
Este foi mais um capítulo da eterna briga pelo poder dentro da PF, agora com sindicalistas. Para o cargo de Chelotti, os federações de policiais querem indicar o superintendente em Alagoas, Bergson Toledo, enquanto que outros setores apostam em Cavalheiro e no delegado João Batista Campelo, ex-dirigente da PF.
Chelotti diz que não vai aceitar ingerência dos sindicatos na administração, como vinha fazendo Lemos. "Ele perdeu minha confiança", afirmou o diretor da PF, observando não saber que ele demonstrava ter poderes sobre a direção, como ficou constatado nas gravações telefônicas.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), reagiu com um desafio à denúncia da revista, que aponta ele como sócio de uma empresa financeira do ex-banqueiro ¶ngelo Calmon de Sá, nas Ilhas Cayman. "Eu desafio qualquer brasileiro a falar sobre minha moral", disse ACM, considerando como "boba" a acusação. O presidente do Senado afirmou não acreditar que a denúncia tenha sido repassada por Chelotti ou por algum dos assessores dele. Segundo o diretor da PF, nos últimos três anos, não teve acesso ao processo Sá. "Só tive contato com o inquérito - conhecido como Pasta Rosa - quando o enviei para o Ministério Público (MP)", afirmou Chelotti.

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