Diretor de Fiscalização do BC pede demissão após desqualificar CPI
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sexta-feira, 26 de novembro de 1999
Por Vânia Cristino e Soraya de Alencar 
Brasília, 26 (AE) - Uma hora após conceder uma entrevista coletiva de mais de quatro horas na qual desclassificou o relatório da CPI do Sistema Financeiro, chamando de lixo o trabalho dos senadores, o diretor de Fiscalização do BC, Luiz Carlos Alvarez, pediu demissão do cargo. Em breve comunicado lido pela assessoria de imprensa, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, informava que tinha aceito o pedido de demissão do diretor.
"O Banco Central perdeu um diretor e funcionário sério, competente e experiente. É uma pena que isso tenha ocorrido", disse Fraga, por meio da assessoria de imprensa. Fontes do Banco Central garantiram que Alvarez estava sob pressão há vários dias e que sabia que o senador Jáder Barbalho já tinha pedido a sua demissão. "Ele vinha reclamando que não fazia outra coisa na diretoria do banco do que responder às solicitações dos senadores", disse uma fonte.
Assessores do diretor afirmaram que Alvarez parecia já saber que iria deixar o cargo antes mesmo de conceder a entrevista. "Suas declarações foram de um diretor demissionário", avaliaram. Um assessor direto do diretor contou que assim que retornou ao seu gabinete Alvarez ligou para Armínio Fraga: "Falei demais. Disse que o relatório era um lixo", teria dito Alvarez colocando, em seguida, o cargo à disposição. Segundo essa fonte, Fraga pediu um tempo e depois retornou a ligação, aceitando o pedido.
Na avaliação do assessor da diretoria de Fiscalização, ao colocar o cargo à disposição Alvarez apenas se antecipou aos fatos. "Ele sabia que os políticos iriam pedir a sua cabeça e que o Palácio do Planalto cederia", disse a fonte. De acordo com o assessor, mesmo demissionário Alvarez continuou cumprindo a agenda normalmente, inclusive com reuniões fora do banco. Como já tem tempo para solicitar a aposentadoria, a intenção do diretor demissionário é sair de férias e depois se afastar, definitivamente, do BC.
As pressões que o diretor demissionário do BC vinha enfrentando não dizia respeito somente à atuação da CPI. Alvarez estava tendo dificuldades dentro do BC pela sua posição a favor da reestruturação do órgão, com o fechamento e enxugamento de várias regionais. Na reforma administrativa em curso no BC, as delegacias regionais de Belém e Salvador, por exemplo, serão extintas. O anúncio da redução de atividades em algumas praças não agradou aos colegas do banco e menos ainda aos políticos. Segundo assessores, Alvarez sempre argumentou que não se justificava a presença do BC em locais que não contam com matrizes de bancos.
Na nervosa entrevista coletiva Alvarez procurou ser didático. Ele apontou, um por um, o que na sua opinião foi uma sucessão de erros e equívocos cometidos por quem não entende de sistema financeiro.
Acompanhado do chefe do departamento de Operações Bancárias (Deban), Luís Gustavo da Matta Machado, Alvarez fez questão de detalhar a operação de Proer, separando-a do débito nas reservas bancárias. "São coisas distintas e que não podem ser misturadas nem somadas". afirmou.
Segundo Alvarez, a CPI do Sistema Financeiro fez uma confusão ao misturar as duas coisas. "Como nós podemos estar escondendo os números verdadeiros, se fomos nós que informamos tudo à CPI", perguntou. Segundo ele, o débito nas reservas bancárias já estava dado, independente do Proer, que foi instituído com o objetivo de proteger as aplicações dos clientes dos bancos. "Não seria justo o Banco Central colocar o seu débito dentro do Proer", argumentou. Daí, segundo o diretor, que em valores atualizados o Proer tem a receber R$ 22,8 bilhões
sendo de mais R$ 12,9 bilhões o saldo devedor na conta de reservas bancárias dos bancos beneficiados com o programa.
Alvarez lembrou que, em valores históricos, o Proer concedido foi de R$ 20,3 bilhões e que as garantias, em papéis do governo, superam esse valor em 20%. Do montante em valor nominal concedido, R$ 4,3 bilhões já foram pagos. Em valores atualizados, os recebimentos saltam para R$ 5,6 bilhões e os valores a receber para R$ 22,8 bilhões. O diretor demissionário afirmou que todo o Proer será recebido pelo governo. A dúvida, segundo ele, é com relação ao débito em reserva bancária do Nacional, de R$ 7,6 bilhões. Como a fraude no Nacional foi grande ele acredita que só uma parte da reserva bancária virada será paga ao BC. O restante terá que ser buscado nos bens pessoais dos ex-controladores, que estão respondendo a ação de responsabilidade civil movida pelo Ministério Público.


