Diretor das Nações Unidas critica igreja
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terça-feira, 07 de novembro de 2000
Agência Estado Do Rio 
O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para a Aids (Unaids), Peter Piot, disse ontem que a Igreja Católica representa um obstáculo aos programas de prevenção à doença na América Latina e Caribe. Segundo ele, em alguns países, a igreja faz contrapropaganda do uso da camisinha. Não é aceitável que sejam divulgadas informações falsas sobre os preservativos; que não são seguros e não garantem proteção, afirmou.
Piot participou da abertura do Fórum 2000 evento que reune cerca de 1.500 especialistas para tratar da Aids na região. O diretor da Unaids defende a tese de que não deveria haver conflito entre as posições da Igreja e dos especialistas em Aids. Para ele, as duas visões poderiam ser complementares. A igreja defende a abstinência e a fidelidade conjugal como forma de evitar o contágio. Nós fazemos campanha pelo uso do preservativo, explicou. Mas não é necessário que a igreja faça contrapropaganda do uso da camisinha.
Piot fez questão de frisar, no entanto, que a Igreja não é uma instituição monolítica. Há diversos grupos que apóiam as campanhas, lembrou, citando ainda que nos países católicos da Europa não tem encontrado resistência. Ele afirmou ainda que um artigo publicado recentemente pelo jornal do Vaticano já admitia o uso da camisinha entre casais em que um dos cônjuges tem Aids.
O coordenador do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis DST/Aids do Ministério da Saúde, Paulo Teixeira, afirmou que, no Brasil, a Igreja vem colaborando bastante nas campanhas de prevenção da Aids, inclusive no que diz respeito ao uso de preservativos, e também nos programas de apoio a doentes e familiares. Há algumas lideranças que têm se pronunciado contra o uso da camisinha; mas, de uma maneira geral temos tido muito apoio, afirmou.
Outro grave problema da epidemia de Aids na América Latina e no Caribe também está relacionado ao preconceito, segundo Piot. Em boa parte desses países, a maior incidência da doença ocorre entre homossexuais, com porcentuais que chegam a até 30%. Há casos em que a expectativa de vida desses grupos está reduzida em até 50%. No entanto, as verbas destinadas pelos governos para a prevenção da doença entre homossexuais é em geral irrisória. Em alguns casos a verba não chega a 1% do orçamento para a doença, o que, às vezes, não chega a US$ 50 mil, denunciou.
Isso é uma piada. No Brasil, segundo Teixeira, o governo federal destinou, este ano, para tratamento e campanhas de prevenção R$ 1 bilhão. Desse total, R$ 5 milhões foram destinados especificamente para campanhas desenvolvidas por ongs para os homossexuais. O tratamento e a prevenção da Aids no Brasil foram largamente elogiados por Piot. Segundo ele, o País é um exemplo a ser seguido pelas demais nações da América Latina e do Caribe.
De acordo com números da Unaids, em termos absolutos, o Brasil lidera o ranking da epidemia na região, com 540 mil casos. No entanto, quando os números são avaliados em relação ao número de habitantes de cada país, o Brasil aparece em 14º lugar com 0,57% da população adulta contaminada. A situação mais preocupante é a do Haiti, onde 5,17% das pessoas em idade adulta têm aids. O porcentual chega a 10% nas áreas urbanas do país.


