São Paulo, 22 (AE) - A indústria paulista apóia a hipótese - admitida por integrantes do governo - de dar novos rumos para os recursos das privatizações, até agora utilizados para o resgate da dívida pública. E reforça que a transferência da responsabilidade sobre o processo de privatização das empresas energéticas, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o Ministério das Minas e Energia
só deve surtir efeitos positivos se o governo adotar, ainda, o modelo de pulverização das ações das estatais junto ao público, de maneira que um grupo nacional mantenha o controle da administração.
Para o coordenador do Grupo de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Jeha, uma eventual mudança da atual política pode indicar que o governo "acordou". Segundo Jeha, o modelo de privatização adotado pelo governo não trouxe nenhum benefício. "A política do governo segue o consenso de Washington, onde a idéia é vamos privatizar tudo já que órgãos reguladores vão defender os consumidores. Mas os órgãos reguladores não têm força para enfrentar empresas como a Telefonica ou a MCI, por exemplo", afirmou Jeha.
O empresário defende o argumento de que tanto faz o BNDES ou o Ministério das Minas e Energia assumir o encaminhamento das privatizações, porque é o governo, diz ele, quem decide como realizar as privatizações e destinar os recursos. "Com ou sem BNDES, as concessionárias de serviços públicos deveriam ter ficado, obrigatoriamente, nas mãos de brasileiros, por questões estratégicas", avaliou. Ele acredita, no entanto, que o presidente Fernando Henrique Cardoso daria um bom passo se mudasse a destinação dos recursos.
"Os ventos estão mudando", disse. Mas acrescenta: "A venda do patrimônio público nos últimos oito anos não foi suficiente para o governo pagar juros de um ano só", calculou. Para Jeha, os recursos advindos de empresas estrangeiras, algumas financiadas pelo BNDES, não trouxeram dividendos, porque
a médio e longos prazos, as estrangeiras vão gerar déficit na balança de pagamentos do Brasil em razão das remessas de lucros.
Com base em dados do próprio BNDES, argumentou Jeha, no período entre 1991 e 30 de julho de 1999, os recursos do governo arrecadados com privatizações federais - telecomunicações, siderúrgicas e energéticas - somaram US$ 57,964 bilhões, o equivalente a R$ 104,335 bilhões (um dólar cotado a R$ 1,80). Desse total, o setor de telecomunicações arrecadou US$ 26,978 bilhões com vendas e US$ 2,125 bilhões com transferências de dívidas, enquanto o PND somou US$ 19,660 bilhões, de vendas, mais US$ 9,201 bilhões, com repasse de dívidas.
Jeha alega que, só no último ano (período entre agosto de 1998 e 31 de julho de 1999), o governo pagou de juros o correspondente a R$ 129 bilhões. O resultado representa, assim, déficit de R$ 25 bilhões. "A política de privatizações foi um desastre", sentenciou o empresário. Para ele, a política de juros, a sobrevalorização cambial e o modelo de privatizações patrocinou a venda do patrimônio público sem resultados para o País.
Ele avaliou ainda que, caso o Brasil cresça 4% ou 5% ao ano, segundo as previsões, vai faltar energia, porque o País, diz ele, não investe neste setor há mais de 20 anos. "Em vez de ter vendido empresas energéticas para estrangeiros, por que o governo não as estimulou construir usinas hidrelétricas?", perguntou. "Tem conclusão mais melancólica do que essa?"

mockup