Direito de matar?
Fato 1: O matador de John Lennon, há 12 anos, continuará trancado numa cela. Mark Chapman pediu liberdade condicional, pela segunda vez, e a resposta da Justiça norte-americana foi ''não''. A próxima audiência foi marcada para o ano de 2.004.
Fato 2: o novo Prêmio Nobel de Literatura, o húngaro Imre Kertész, teve sua obra reconhecida pela Academia Sueca de Letras, descrevendo o martírio de estar preso num campo de concentração nazista, sentindo na pele, no sangue e na alma o que quer dizer holocausto, o extermínio em massa.
Fato 3: Um franco-atirador diverte-se, nas ruas de Washington, fulminando à distância vítimas previamente escolhidas com um fuzil 5,56 mm. Na última terça-feira, um menino foi alvejado em Maryland. Ali foi encontrada a mensagem: ''caro policial, eu sou Deus''.
Chapman matou por matar, num gesto de psicopata, o compositor que transbordava talento pela música. Um gesto individual. Kertész, nome que traduzido pode ser entendido por nós como ''Américo Jardineiro'', produz a literatura à ''procura do humano no que há de mais desumano'', segundo Peter Zent, diretor do Festival Internacional do Livro de Budapeste. Gestos coletivos na matança de milhões. O matador dos Estados Unidos, solitário, diz que é Deus, embora Deus diga ''não matarás''. Morte planejada é o fim antes do fim. A sociedade brasileira tem se recusado a entender que esta é a expressão da violência em grau máximo. Estamos convivendo com a barbárie das cavernas nos centros urbanos: comprou droga e não pagou? Mata! Quer dominar a boca de fumo e de pó? Mata! A vítima reagiu? Mata! Brigou no trânsito? Mata! Tem problemas alimentados a ódio, ciúme, ambição, avareza, ganância, distúrbios sexuais? Mata! Tem menos de 18 anos? Mate tranquilo!
A morte é irreversível? Óbvio. Alguém tem direito de matar? Não, evidentemente. Tem sido este o entendimento do povo? Claro. Assim pensam nossos legisladores? Não! Por partes: se Lennon fosse brasileiro, e Chapman também, o assassino já estaria à solta há muitíssimo tempo. Se Kertész fosse brasileiro, escrever sobre a morte em série não lhe daria, entre nós, prêmio algum: matar e morrer são temas considerados tão corriqueiros, tão banais, tão incorporados ao cotidiano... Se Washington fosse cidade brasileira, o caso não estaria sendo investigado tão intensamente. Hoje, domingo, o expediente policial é meia-boca. Ontem, também. Os bandidos agem em tempo integral. O esquema policial é burocrático: registra o caso hoje, investiga amanhã. O bandido é ágil, dinâmico. A maioria dos assassinos está andando por aí, fruto do número superior de casos não esclarecidos em relação à descoberta de autores. Assassino brasileiro tem direito a responder processo em liberdade. Assassino brasileiro é tratado como vítima e vítima é tratada como se fosse culpada. Matar é violência em estágio maior. Nosso sistema, com os olhos vendados, prefere dizer que se trata de violência em grau menor. Convenhamos: algo está errado.





