A tomada de rádios, TVs, jornais e internet pelas grandes corporações e a ocupação cada vez maior dos espaços jornalísticos no mundo pelos temas de negócio foi descrita hoje como uma séria ameaça ao direito de informação pelo crítico de mídia norte-americano Norman Solomon. Um dos debatedores do painel ‘‘Como assegurar o direito à informação e a democratização dos meios de comunicação’’, do Fórum Social Mundial (FSM), na capital gaúcha, Solomon estimulou a sociedade civil ‘‘a produzir brechas neste muro que nos isola e torna passivos, como forma de uma estratégia política’’.
Defendeu ações para a ‘‘quebra do monopólio da informação e dos oligolipólios internacionais’’. Lembrou que, atualmente, o noticiário é cada vez ocupado com informações dos negócios das megacorporações - as mesmas que, muitas vezes, controlam a mídia. ‘‘E não existem mais as seções de assuntos trabalhistas dos jornais’’, constatou. ‘‘Apenas seis empresas, nos Estados Unidos dos anos 90, já controlavam 50% das informações produzidas no país’’, acentuou. ‘‘E a internet está sendo engolida por elas também. Assim como aconteceu com o rádio ou a TV, não será uma tecnologia que resolverá a falta de democracia.’’
Ele responsabilizou a mídia por, através da propaganda, vender qualquer coisa. ‘‘Vende-se tanto um tênis da Nike quanto uma guerra, como se fez com o bombardeio da Iugoslávia’’, ilustrou. Acusou os meios de comunicação norte-americanos de adocicar a trajetória de lutadores sociais, como Martin Luther King, descrito como um sonhador. ‘‘Apagaram os últimos dias de King quando ele denunciou o que denominava de ‘tripé perverso’, integrado pelo militarismo, a pobreza e o racismo’’, ressaltou.
Como uma das formas de enfrentamento para ‘‘abrir fissuras na muralha’’, o crítico de mídia sugeriu a disseminação das rádios comunitárias, ‘‘de custo baixo e com participação da comunidade’’ e que também podem produzir ‘‘bons programas’’. Exemplificou com o papel que desempenha por uma rede de 150 rádios comunitárias da América do Norte e do Caribe que transmitiu as mobilizações anti-neoliberalismo de Seattle. E distribuiu endereços na rede mundial de computadores (www.radioproject.org; www.fair.org; e www.accuracy.org) para ampliar o trabalho.
Outro participante do debate, Ignacio Ramonet, do jornal francês Le Monde Diplomatique, observou que já estão em mãos norte-americanas 39% da mídia mundial e 44% da produção internacional de televisão. O debate terminaria por volta das 12h de sábado também com a presença do norte-americano Thimoty Ney, representante da Fundação Software Livre; de Aruna Roy, da India - que trabalha com informação entre comunidades rurais do Rajastão - e da brasileira Regina Festa, professora de Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
O francês Marcelo Mazoyer, do Instituto Nacional de Agronomia da França, propôs ontem o boicote às empresas que cultivam alimentos transgênicos. O segundo dia de conferências do Fórum Social Mundial deu continuidade à discussão a respeito do controle social sobre o meio ambiente. Mazoyer, Roberto Kishinami, diretor do Greenpeace nacional, o italiano Riccardo Petrella, professor da Universidade de Louvain (Bélgica), e Ernesto Ladrón de Guevara, da organização internacional Via Campesina, contestaram a apropriação privada de recursos genéticos e seus danos à saúde.
‘‘A comercialização de variedade híbridas de transgênicos é um crime contra a humanidade e os autores desses crimes devem ser banidos da sociedade’’, disse Mazoyer, sugerindo que nenhum produto desses industriais devam ser comprados. ‘‘Temos de limitar as ambições dos empresários.’’ Para o agronômo, é preciso acabar com as patentes industriais e usar o Certificado de Obtenção Vegetal, que dá direito ao camponês semear a colheita, sem comercializá-la, mas dividindo entre as comunidades, e permitindo a pesquisa pública sem restrições. ‘‘A troca livre dos recursos genéticos é talvez nossa principal luta’’, afirmou Guevara. ‘‘A competição das empresas multinacionais com nosso sistema é nosso maior inimigo.’’
O italiano Petrella criticou a transferência de poder e riqueza nas privatizações, provocando enfraquecimento da democracia, e alertou para o retorno do nacionalismo na Europa e nos Estados Unidos. ‘‘Queremos a globalização da propriedade comum, e a nacionalização é um sinal de que as pessoas não estão sendo educadas para agir na perspectiva do bem estar comum’’, afirmou.
O debate continua hoje com a visita programada pelo Movimento dos Sem Terra (MST) de convidados a um assentamento. Segundo o líder do MST, João Pedro Stédile, os convidados, entre eles o líder camponês francês José Bové, irá ao assentamento Capela, em Nova Santa Rita (Região Metropolitana de Porto Alegre), que produz arroz orgânico.

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