Diplomatas reafirmam compromisso de integração do Mercosul
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
Por Rolf Kuntz Enviado especial 
Santiago, 06 (AE) - É indispensável preservar os avanços do Mercosul: enquanto a região começa a vencer o impacto da crise internacional, agravado pela mudança cambial brasileira, diplomatas do Brasil e da Argentina reafirmam publicamente o compromisso de integração. É preciso evitar o risco de retrocesso, disse hoje o chanceler Luís Felipe Lampreia, referindo-se principalmente a pressões protecionistas de setores empresariais argentinos. O senador Fernando Bezerra, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), acrescentou ênfase à pregação: "A solução para os problemas do Mercosul é mais Mercosul", afirmou, citando estratégicamente o presidente argentino Carlos Menem.
A integração, comentou o senador, deixou de ser uma questão de governo e se tornou um assunto de Estado, acima dos problemas de sucessão. As fragilidades dos blocos, disse Bezerra
tornam-se mais visíveis nos momentos de crise, mas também surgem, nessas ocasiões, oportunidades de avanço.
Os temores podem ser exagerados, mas têm raízes concretas. Lampreia mencionou as preocupações despertadas pela mudança do câmbio no Brasil - nenhuma delas confirmada pela sucessão dos fatos. Não houve fechamento do mercado brasileiro, nem os produtos do País inundaram os mercados vizinhos. Além disso, acrescentou, a economia nacional se recupera muito mais velozmente do que se previa há um par de meses, e isso "é um alento para o Mercosul".
Menos de uma hora mais tarde, e noutra sessão do Fórum Econômico Mundial, foi a vez de um diplomata argentino, o subsecretário de integração econômica, Alfredo Morellli, apontar as reservas de vitalidade do bloco. Participante de um painel sobre "como pode o Mercosul sobreviver às dificuldades do ano à frente", ele começou por qualificar a pergunta como dramática em excesso. Há dificuldades em cada país do bloco e no cenário internacional, disse Morelli, e em momentos como este aumentam as pressões a favor do protecionismo. Mas é preciso, acrescentou
levar em conta o valor fundamental do Mercosul.
A integração, lembrou o diplomata, foi buscada como fator de estabilidade e para facilitar a inserção no sistema mundial. Os efeitos ultrapassaram a economia: a integração favoreceu a consolidação democrática e a promoção de valores como os direitos humanos. O ministro da Indústria e do Comércio do Paraguai, Guillermo Caballero Vargas, tomou a iniciativa de mencionar a história recente de seu país: "O Mercosul", disse, "passou no exame final com a superação da crise paraguaia". A integração, acrescentou, já foi muito longe e o caminho, agora, é sem volta. Morelli concordou com esse diagnóstico. A interdependência, com aumento do comércio e dos investimentos recíprocos, avançou muito e o retorno é hoje difícil.
Mas como conseguir "mais Mercosul"? Bezerra propôs uma agenda de emergência e uma de longo prazo. De imediato, segundo ele, é preciso intensificar as consultas e trocas de informações
evitar medidas unilaterais capazes de perturbar o comércio e definir critérios para cuidar dos setores com forte desequilíbrio comercial. É necessário, além disso, buscar a liberalização total do comércio intrabloco até 2001, aplicar totalmente a tarifa externa comum, acertar as políticas de compras governamentais, serviços e propriedade intelectual, aperfeiçoar o sistema de solução de controvérsias. Para efeitos de mais longo prazo, os países do bloco terão de liquidar problemas internos e cuidar de temas como a Rodada do Milênio, na Organização Mundial do Comércio, relações com a União Européia e a possível integração hemisférica.
Morelli acentuou a importância de incluir os serviços na integração. Enquanto os acordos se limitam ao comércio de bens, os países deixam de lado quase metade de sua economia. Mas é também necessário, acrescentou o diplomata argentino, avançar na integração de políticas macroeconômicas. De modo particular, observou, a estabilidade do Brasil, maior economia da região, é fundamental para a integração.
Também sobre esse ponto há um nítido acordo. Falando numa sessão anterior, o ministro Lampreia havia mencionado a resistência à inflação, depois da mudança cambial, como "o grande êxito do Brasil neste ano". Foi, segundo ele, o resultado de uma grande mobilização: nenhum sindicato pressionou imediatamente por acerto salarial, a imprensa vigiou os preços dos produtos essenciais e houve resistência à especulação. Economistas poderiam julgar essa descrição um tanto incompleta, sem referência a juros devastadores ao desemprego em alta - poderosos fatores de neutralização de pressões inflacionárias. Mas Lampreia vê motivos muito respeitáveis para se deleitar na exposição de boas notícias. Há pouco mais de dois meses, na Suíça, durante a reunião anual do Fórum Econômico em Davos, ele era a o representante principal de um país mergulhado numa crise cambial, com dois presidentes de banco central demitidos em poucas semanas e com as piores avaliações de gurus da economia internacional.


