Washington, 18 (AE) - A conivência dos Estados Unidos com violações aos direitos humanos na América Latina ao longo deste século geralmente envolveu atrocidades cometidas por governos de direita contra militantes de esquerda. Na semana passada, o presidente Bill Clinton lembrou esse triste capítulo da história americana e provocou uma pequena tempestade política em Washington ao pedir perdão ao povo da Guatemala pelos crimes que os EUA direta ou indiretamente sancionaram e acobertaram durante a longa guerra civil no país centro-americano.
De acordo com uma investigação interna realizada pelo Departamento de Estado sobre um assassinato de uma militante de direita no Haiti do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, o mal hábito continuou mesmo depois que os EUA deixaram de apoiar só os regimes de direita no continente e passaram a conviver com governos de esquerda eleitos democraticamente.
Segundo um documento oficial vazado ao New York Times, James F. Dobbins, diplomata de carreira de 56 anos e atual chefe da delegação especial dos EUA que negocia a questão do Kosovo, foi promovido a sua atual posição de embaixador especial mesmo depois de ter sido acusado de agir com "temerário descaso" e prestado depoimento "incompleto, enganoso e possivelmente falso" ao Congresso americano sobre as investigações conduzidas pelo FBI a respeito do assassinato da líder direitista Mireille Durocher Bertin , durante a ocupação do Haiti pelas tropas americanas que restauraram o esquerdista Aristide no poder em setembro de 1994.
A acusação está num documento de 700 páginas preparadas pela inspetor geral do Departamento de Estado, Jacquelyn L. William- Bridgers, que trabalhou mais de um ano no caso. Um porta-voz do Departamento de Estado disse que Dobbins continua a gozar da confiança da secretária de Estado, Madeleine Albright, e permanecerá no cargo de negociador da crise de Kosovo, que parecia ter chegado hoje a um novo impasse.
Ex-embaixador dos EUA na Iugoslávia, Dobbins serviu como negociador especial de Clinton no Haiti antes de ser nomeado conselheiro presidencial para a América Latina. Nessa posição, foi o autor da idéia de conceder o status militar de aliado extra-Otan à Argentina, uma iniciativa calculada como parte da estratégia comercial de Washington para voltar a vender aviões militares para a região, que provocou enorme celeuma em todo o continente em 1996 e 1997.
Dobbins gostaria de ter sido embaixador dos EUA na Argentina e fez intenso lobby para isso, mas teve seus planos frustrados pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o ultraconservador Jesse Helms, em parte em represália à política de Clinton no Haiti, que nunca contou com apoio no Congresso.
Não estava claro, até hoje, se e como o vazamento do relatório contra Dobbins afetará sua missão de negociador da paz em Kosovo. Mas publicidade dada ao documento parece já ter comprometido a carreira do embaixador.
Segundo a inspetora do Departamento de Estado, o FBI suspendeu as investigações sobre o assassinato de Durocher Bertin depois de sete meses sem ter conseguido a cooperação do governo de Aristide, mas com fortes indícios ligando o governo do ex-sacerdote católico ao crime.
Dobbins tinha essas informações, mas não as revelou em depoimentos às comissões de relações exteriores da Câmara e do Seando. O assassinato da militante direitista permanece sem solução.

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