Diplomacia moderna é a do faroeste Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 27 (AE) - Antigamente a diplomacia era uma ciência sutil. No século 18, os reis e seus ministros borboleteavam: casando uma princesa com um príncipe solucionavam um conflito. Juntos frequentavam balneários à margem do Reno, desfazendo ódios milenares.
A Revolução Francesa e o ingresso na história tanto dos povos quanto dos exércitos nacionais provocaram uma mudança. Hoje, os diplomatas sofrem de uma irresistível tentação de empunhar suas armas.
A diplomacia moderna é a do faroeste. Quando uma situação se complica um pouco, saco meu Tornado, F-15 ou Mirage, e dou uma pancada. Para depois refletir. Em Kosovo foi esse o caminho escolhido pelo Ocidente, numa espantosa unanimidade.
O Ocidente está, pois, dando pancadas. Em quem? Os chefes da Otan e do Pentágono devem saber o que golpeiam. Não é o nosso caso. A morte é um segredo militar. Em compensação há algo que sabemos: segundo as últimas notícias de Belgrado ou de Pristina, o tirano Slobadan Milosevic e seus soldados sérvios não se dissolveram pelo simples fato de terem sido golpeados por aviões furtivos. Suspeitamos até mesmo que, ao contrário, o poder maléfico de Milosevic e seus soldados atualmente parece ter sido revigorado pelos tapetes de bombas lançadas nas duas últimas noites.
Outra evidência foi revelada: as nações ocidentais abriram fogo da Otan para socorrer os infelizes habitantes de Kosovo - a província sérvia que exige autonomia e até mesmo independência - protegendo-os dos soldados e policiais sérvios. Mas todas as informações que nos chegam revelam que os resultados se opõem rigorosamente às metas perseguidas pelo Ocidente e pela Otan: deixados sozinhos diante dos batalhões de soldados sérvios os kosovares caíram numa ratoeira. Daí falar-se de massacres e purificações étnicas. Oxalá sejam exageradas tais notícias. Em compensação, é certo que os infortunados kosovares fogem esbaforidos como coelhinhos, batendo em todas fronteiras e ameaçando espalhar-se pelos países vizinhos até à Itália .
Explicam-se assim as febres que abalam o mundo; em todas as capitais, de Moscou a Ottawa, aumentam os gemidos contra os ataques aéreos. E os governantes do Ocidente parecem não dispor de moral férrea, apesar de não contestar a ação empreendida.
De nossa parte, sem menosprezar a necessidade de ajudar os kosovares contra os sérvios, poderíamos, talvez, perguntar se não ocorreram alguns erros no nível da execução.
Um primeiro erro é a ilusão de poder ganhar uma guerra com aviões. Estranha crença! Desde os anos 20 um general italiano, Giulo Douhet, criou teorias sobre os ataques aéreos. Douhet preconcebeu os planos postos em prática três quartos de século mais tarde pelo general americano Wesley Clark. Porém - como sublinhou o especialista militar Jacques Isnard -, o general italiano atribuía apenas missões "parciais" aos bombardeios. Em caso algum aconselhava uma guerra realizada apenas a partir do céu, preconizando somente destruir o utensílio do inimigo com bombas, para assim preparar a chegada das tropas terrestres.
É bem verdade que desde o general Douhet a força área fez progressos apavorantes (aviões, foguetes, mísseis, bombas teleguiadas, etc...) Pouco importa: a história mais recente demonstrou que nunca uma guerra foi resolvida pelos aviões. Recordemos as milhares de bombas lançadas por Hitler sobre Londres durante a 2ª Guerra Mundial e a impassibilidade dos ingleses. Lembremos o ridículo dos bombardeiros americanos (B-52) no Vietnã.
Mas, apesar dessas evidências, o Pentágono continua atendo-se a essa única estratégia, que sempre malogrou, inclusive recentemente no Iraque. O que nos leva a perguntar: o que é que se ensina em West Point?
Desde o início, um segundo handicap prejudicava a ação aliada: essa operação punitiva foi, e com razão, desejada ardentemente não pelos americanos, como geralmente se crê, mas pelos europeus - mais especialmente pela dupla franco-inglesa. Londres e Paris dispararam um dispositivo contendo um primeiro estágio (as negociações de Rambouillet) e, em seguida, um segundo estágio, a ação militar.
Lamentável que os europeus não tenham sabido conduzir bem esse procedimento. Em primeiro lugar no nível político, pois que nem Belgrado e nem os kosovares levaram os europeus a sério. Eles queriam outros interlocutores, ou seja os americanos, na pessoa de seu negociador Richard Holbrooke. O mesmo sucedeu no plano militar, no qual, por falta de recursos (particularmente dos foguetes guiados), a União Européia não pôde realizar a operação, ficando pois na dependência dos americanos, submetendo-se a estratégia do Pentágono.
E, como já vimos, essa estratégia exclui o envio de tropas terrestres. Desde o Vietnã, os EUA recusam-se a verter sangue de seus rapazes.
Por isso, desde o início, a ação contra Milosevic ficou restrita ao uso único da aviação (pelo menos até segunda ordem pois, alastrando-se o mal, será necessário considerar o uso de tropas terrestres, o que poderia se tornar uma aventura bastante perigosa). Por enquanto, Milosevic tem suportado muito bem os ataques. E convém recordar Saddam Hussein que, massacrado por bombas e submetido a um bloqueio abominável, continua mantendo-se à proa de seu país.
No caso de Milosevic é possível imaginarmos duas opções. O ditador sérvio poderia ceder ao terror aéreo (mas não parece estar agindo nesse sentido). Ou poderia aguardar a fadiga e o desencorajamento dos aliados quando, comovidos pela carnificina, os povos europeus passarão a pressionar seus governos.
Nesse caso, Milosevic poderia ainda optar por dois caminhos. O primeiro deles, matando 100 mil kosovares e com isso forçando os 900 mil restantes a se juntarem a seus primos na vizinha Albânia. E o segundo, dividindo em dois a província de Kosovo, dando aos kosovares albaneses (independentistas) as montanhas estéreis e inóspitas e conservando para os sérvios as ricas planícies agrícolas do centro.
É fácil calcular os perigos inerentes a todas essas soluções. Étnica e historicamente a região é tão mesclada, que por um nada a doença poderia ultrapassar as fronteiras. Há sérvios (ortodoxos e eslavos) em todos os Estados da região, assim como nesses mesmos estados há os albaneses muçulmanos. Assim, o perigo do abcesso, em vez de se manter circunscrito ao infortunado Kosovo, lançar suas metástases, graças aos bombardeios, em todos territórios limítrofes (Macedônia, Iugoslávia, Bulgária, Albânia e até mesmo Grécia).
Essas são as realidades que parecem estar descobrindo hoje milhares de diplomatas ocidentais, que curvaram suas cabeças encanecidas e pensativas sobre Kosovo, desde meses e até mesmo anos. Para que essas realidades se revelassem a eles foram necessárias bombas. Esperemos que não seja tarde demais para evitar a combustão dos Bálcãs que, por tradição e vocação, são uma das regiões mais terríveis do mundo.





