Dinheiro versus casa antiga em Pequim
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quinta-feira, 03 de fevereiro de 2000
Por Renee Schoof, da AP 
Pequim (AE-AP) - Zhao Jingxin é considerado um patriota. Seu pai, um teólogo cristão chinês, o encorajou a retornar à China para apoiar os comunistas quando eles tomaram o poder, e assim Zhao fez. Ele joga tenis com velhos e poderosos líderes do partido comunista.
Mas na Pequim que se moderniza rapidamente, mesmo boas conecções podem não salvar sua pequena casa de 400 anos das escavadoras que há reduziram suas vizinhança a escombros.
Esforços pela preservação histórica têm sido uma ascendente batalha que coloca proprietários de pequenas casas como Zhao contra o governo da cidade, que controla todo o direito de propriedade e faz bons negócios imobiliários sem controle público.
"Tudo o que interessa é ganhar dinheiro", afirma Zhao, que não está interessado em indenização, mas apenas em preservação histórica.
Zhao registrou uma ação este mês, sutentando que a demolição seria ilegal porque o terreno não é necessário para o bem público.
O governo de Pequim quer construir um shopping center de cinco andares, mas já possui três vezes a área que precisa para construir os escritórios e o prédio do shopping, irrita-se Zhao.
Casas térreas, com muros, telhas redondas e pátios centrais com árvores frutíferas e sombra foram marcas das ruas de Pequim por séculos. Na última década, vastos pedaços dessas vizinhanças foram destruídos e substituídos por enormes torres com escritórios, apartamentos e lojas.
A casa de Zhao nunca foi majestosa como algumas de sua vizinhança que já foram destruídas. Porém, ela possui alguns aspectos elegantes e históricos, como tijolos esculpidos em forma de gato, borboleta e peônia (flor).
"Eu não quero dinheiro. Eu tenho responsabilidade, como chinês, de proteger esta casa da dinastia Ming", disse Zhao, sentado em sua pequena sala de estar, onde as altas paredes brancas são decoradas com caligrafia e fotografias. Janelas ensolaradas dão vista para o quieto pátio, cheio de roseiras com dois metros de altura.
Quando a prefeitura colocou sua vizinhança abaixo, cerca de um ano atrás, Zhao recusou-se a sair. Até agora ele tem sido poupado da tática usual utilizada pelo governo contra proprietários que resistem: despejo forçado pela polícia.
O tratamento pode ter a ver com seu passado. Filho de um teólogo e entusiasta comunista, T.C. Chao, Zhao deixou um bom emprego na Hong Kong britânica com a perda da linha aérea do governo nacionalista e retornou ao continente logo após a vitória comunista em 1949. Agora, um saudável senhor de 82 anos, Zhao joga tênis numa liga de veteranos com políticos do partido aposentados e ainda na ativa.
Para salvar sua casa, Zhao escreveu a um funcionário do governo central, cujo nome ele não revela, num pedido final. Um grupo de estudiosos, que já ganhou e perdeu outras batalhas pela preservação, também escreveu um apelo em sua defesa.
Mas Zhao não está otimista. Se ele perder, pode ser forçado a sair de sua casa rapidamente.
A empresa por trás das demolições, a Companhia de Desenvolvimento Imobiliário Wangfujing, é uma extensão do governo da cidade, diz Zhao. Repetidos pedidos de explicação em relação á empresa ao escritório do governo central foram recusados.
Próximo ao seu quarteirão, a Avenida da Paz foi recentemente alargada. Depois de derrubar as casas de paredes cinza e as árvores que já se enfileiravam na rua, a cidade declarou que a nova rua teria a aparência da última dinastia. Novas lojas, muitas ainda vazias depois de um ano da construção, têm poucos ornamentos e telhados com falsas telhas. Suas paredes, feitas de concreto, são pintadas no tradicional cinza.
Um pedaço similar da falsa história pode ser visto nos arredores da cidade: um parque de diversões com um modelo em escala dos muros da cidade. Os muros verdadeiros foram colocados no chão e no início do crescimento comunista e em seu lugar foi construída uma auto-estrada.
Toda essa destruição e construção de substituições falsas é "realmente sem princípios, e dói muito ver isso acontecer", diz Liang Congjie, um ambientalista e historiados que uniu-se ao apelo de Zhao para salvar sua casa. O pais de Liang, um arquiteto educado nos EUA, implorou a Mao Tse-tung, sem qualquer retorno, que transformasse os muros da cidade num passeio público e que construísse a parte moderna da cidade do lado de fora.
Numa matéria sobre os esforços de Zhao em salvar sua casa, até mesmo o Diário do Povo lamentou o rápido desaparecimento de tudo o que fazia Pequim familiar. entre 1990 e 1998, 4.2 milhões de metros quadrados de casas antigas, em sua maioria com pátios, vieram abaixo, informou o principal jornal do partido comunista.
"Muitas eram estruturalmente tão bonitas e tão bem construídas que mesmo os trabalhadores que as desmancharam ficaram maravilhados", afirma o diário.
Mas agora, tantas casas foram demolidas que falar sobre preservação histórica "é como reforças o cercado das ovelhas depois de elas já estarem mortas".


