Dinheiro das frentes de trabalho provoca aumento da violência
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segunda-feira, 15 de março de 1999
Por Edson Luiz Enviado especial 
Soledade (PB), 16 (AE) - A circulação do dinheiro das frentes de trabalho fez aumentar a violência em algumas pequenas cidades do sertão nordestino. O número de assaltos a bancos e prefeituras cresceu, principalmente na Paraíba, onde foram registradas seis ocorrências dessa natureza somente este ano. A Polícia Militar (PM) está reforçando o patrulhamento em vários municípios, durante os dias de pagamento dos trabalhadores.
A maior preocupação está em Soledade, a 50 quilômetros de Campina Grande, no Cariri. Por ser uma das únicas cidades da região que tem agências bancárias, é a mais visada pelos assaltantes. No mês passado, três ladrões entraram na prefeitura durante o expediente, arrombaram diversas portas e quebraram vidraças para tentar encontrar o dinheiro que estava reservado para o pagamento das frentes de trabalho. "Nosso tesoureiro percebeu a presença dos bandidos e fugiu pelas portas do fundo com o dinheiro", diz o prefeito da cidade, Fernando de Araújo Filho.
Nos últimos seis meses, o dinheiro pago pelo governo aos alistados das frentes de trabalho tornou-se a fonte de renda em circulação nos municípios, depois dos aposentados. Cada trabalhador recebeu R$ 80,00 mensais. "Só em Soledade são em torno de mil alistados", diz Araújo. "Por isso, estamos preocupados com os assaltos." Na semana passada, a PM reforçou o policiamento na cidade.
Nos últimos três meses, foram assaltadas as prefeituras de São João do Cariri, Arara e Itaperoá, além das agências bancárias de Picuí, Remígio e Soledade. Em todos os municípios o efetivo policial é pequeno. Em alguns, a PM não tem nem veículo disponível. "Uma pessoa vem aqui, assalta e vai embora tranquilamente, já que a perseguição é impossível, por falta de carros", diz um funcionário da prefeitura de Soledade, que tem medo de revelar sua identidade.
Além da falta de veículos, a PM da Paraíba tem de dar segurança aos bancos e às agências dos Correios, durante o pagamento dos aposentados. Muitas vezes, as datas coincidem e os policiais são obrigados a priorizar um dos dois. Desde que começaram os assaltos, os policiais estão patrulhando as rodovias.
Sertão - Os assaltos a caminhões de cargas e ônibus alastraram-se também no sertão pernambucano, principalmente no Vale do São Francisco, onde a seca perdura há pelo menos um ano. Nem mesmo o patrulhamento da PM nas rodovias evita os roubos, que ocorrem principalmente depois da ofensiva do governo contra o tráfico de maconha. Segundo agentes da Polícia Federal, os bandos são comandados por famílias da região, mas os componentes das quadrilhas são sertanejos, muitos atingidos pela estiagem.
Sem nenhum programa social que beneficie diretamente as famílias pobres, o sertanejo acaba tornando-se alvo fácil dos bandidos. Suas roças, onde antes da seca havia plantações, são utilizadas pelos traficantes para o plantio de maconha. Em geral
o sertanejo é obrigado a ceder a terra e ser responsável pela droga. Quando preso, não delata ninguém. Em troca, preserva a vida da família e garante a alimentação da mulher e filhos durante o período em que ficar na cadeia, uma troca feita pelos narcotraficantes para silenciá-lo.


