Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Brasil ficou menos desigual no ano passado. O estudo mostra aumento de rendimento da parcela mais pobre da população e queda na renda do extrato mais rico da sociedade. O índice de Gini (medida de distribuição de renda) do rendimento do trabalho recuou de 0,495 em 2013 para 0,490 em 2014. Quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição da renda no País.
De acordo com a Pnad, a Região Sul é a que apresenta a menor desigualdade. No Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o índice Gini caiu de 0,453 para 0,442 em um ano. O economista paranaense Cid Cordeiro destaca que o fato de o Sul ter uma forte formalização da mão de obra ajuda a manter condições mais igualitárias, mas ele observa que ainda há um longo caminho a ser percorrido. "A redução da desigualdade se dá pelo binômio políticas públicas e crescimento econômico. Mesmo dentro dos estados mais desenvolvidos, é possível encontrar regiões em que essa engrenagem não funciona como deveria", analisa.
No outro extremo, o Nordeste continua sendo a região mais desigual do Brasil: o índice de Gini foi de 0,501, bem acima da média nacional (0,490). No entanto, a região foi a que apresentou a maior redução da desigualdade na comparação com 2013 (0,524). Houve redução da desigualdade também nas regiões Norte (de 0,475 em 2013 para 0,468 em 2014), e Centro-Oeste (de 0,505 para 0,487).
A única exceção foi a região Sudeste, em que as taxas mostram aumento da desigualdade, de 0,475 em 2013 para 0,478. O índice não crescia na região mais rica do País desde 2005 e regrediu ao patamar de 2011 (0,479). A alta no índice ocorreu devido à queda na renda da parcela 10% mais pobre da região, ao mesmo tempo que outras parcelas tiveram aumento da renda.
Para Naércio Menezes Filho, professor do Insper, o mercado de trabalho do Sudeste pode ter perdido dinamismo antes do restante do País, afetado pelo comportamento da indústria. "O Sudeste foi o primeiro. Mas a distância da renda do trabalho entre os mais ricos e mais pobres voltou a crescer em geral no País em 2015 por outros indicadores", diz.

OUTRA REALIDADE


A Pnad foi a campo no fim de setembro de 2015, antes do agravamento da crise econômica. João Saboia, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que os dados não refletem a situação atual do País. "Sabemos que o mercado de trabalho, desde o ano passado, piorou muito com o fim de um ciclo econômico de incentivo ao consumo das famílias e de gastos do governo. A Pnad é um olhar pelo retrovisor."
Para ele, a tendência é que a desigualdade fique estagnada neste ano e retroceda em 2016, efeito do menor aumento do salário mínimo, avanço da inflação, da informalidade e do desemprego. Saboia ressalva que os números são positivos para uma economia que cresceu apenas 0,1%.
Além da crise econômica e inflação alta, o economista Cid Cordeiro citou os planos de cortes nos programas de distribuição de renda como ameaças para a diminuição da desigualdade nos próximos anos. "A inflação mais alta retira o poder de compra do trabalhador. Se as ameaças contra os programas de distribuição de renda se confirmarem, teremos um grande retrocesso em avanços significativos." (Com Folhapress)

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