São Paulo, 20 (AE) - A forte pressão desta sexta-feira, que levou o dólar a encostar em R$ 2,00, fez o Banco Central agir pelo segundo dia consecutivo na semana. Se anteontem vendeu dólares e anunciou medidas para atrair capitais, hoje o BC preferiu anunciar um leilão de 3 milhões de NBC-E - título de emissão do BC corrigido pelo dólar. O papel tem vencimento em 01/02/2000, daqui a cerca de seis meses, metade do prazo em torno de 13 meses das NBC-E que estão sendo efertadas hoje ao mercado em outro leilão. Neste leilão, anunciado na semana passada, o volume ofertado também é menor, de 2 milhões.
Após o anúncio do leilão, o dólar registrou queda forte. Estava em R$ 1,995 e despencou a R$ 1,945. A colocação de papel mais curto vinha sendo defendida por alguns analistas como um meio de o BC atender à demanda do mercado por hedge cambial e frear a alta do dólar. os títulos que vinham sendo colocados, de prazo mais longo, não cumpririam adequadamente este papel. No mercado, há dúvidas sobre se esta estratégia terá efeitos, mas uma reação do dólar ao anúncio do leilão só deve ficar clara à tarde, pois o leilao foi anunciado já com o mercado em horário de almoço.
O câmbio parece ter preferido não esperar a "marcha dos 100 mil", que promete esquentar o clima político em Brasília na semana que vem, e voltou a disparar nesta sexta-feira. Pouco antes das 13 horas, e antes do anúncio do leilão de NBC-E, portanto, o dólar chegou perto de R$ 2,00 e atingiu R$ 1,99 na máxima (nos futuros e no black, a barreira de R$ 2,00 já foi rompida). A ampliação da alta ocorreu a partir do meio-dia, quando saiu a notícia de que a agência Moodys estava colocando a dívida em moeda estrangeira da Argentina em revisão para um possível rebaixamento.
A notícia sobre a Argentina aumentou as preocupações do mercado sobre a instabilidade na América Latina. Isto sobretudo depois que o continente já esteve em evidência ontem quando sugiram rumores de que o Equador poderia dar calote de sua dívida. O país negou o calote, mas admitiu que estuda com o FMI a possibilidade de reestruturar sua dívida. Segundo operadores, se esta reestruturação atingir os bradies será preocupante, dado que estes títulos da dívida externa já são fruto de uma renegociação.
Mas não é só a América Latina a culpada pela alta do dólar. O mercado já abriu pressionado hoje, com o dólar acima de R$ 1,95 logo nas primeiras horas de negócios. A alta inicial era atribuída ainda a uma continuidade do movimento de ontem à tarde
quando a cotação atingiu R$ 1,937. Embora a notícia sobre o Equador já fosse conhecida ontem à tarde, operadores continuam chamando a atenção para os problemas internos, sobretudo políticos. "Os problemas maiores estão abaixo da linha do Equador", brincou um profissional.
O mercado continua se mostrando insensível com as declarações do governo e alguns analistas, que questionam se os fundamentos justificariam tanto nervosismo. O governo diz que a economia vai bem, mas o mercado continua apontado as turbulências políticas e a deterioração de expectativas como razões para a demanda por hedge cambial.
Fontes consultadas pela AGÊNCIA ESTADO em Brasília comentaram que, na alta de ontem à tarde, o dólar teria subido "no vazio", sem volume, o que poderia denotar movimento especulativo. De todo modo, o fato é que a disparada de hoje parece ter sido bastante convicente para levar o BC a agir mais uma vez. Fica para a tarde o mercado decidir se o alívio será duradouro ou passageiro.

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