Diferença entre preços de remédios vendidos pelas farmácias e produzidos pela Fiocruz chega a 1.720%
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terça-feira, 10 de agosto de 1999
Por Murilo Fiuza de melo 
Rio, 11 (AE) - Levantamento do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que a diferença de preços entre alguns medicamentos vendidos em farmácias e os produzidos pela instituição podem chegar até 1.720%. É o caso do cardiopático Digoxina. Em qualquer farmácia do País, o remédio custa R$ 6,75 a caixa de 24 comprimidos de 0,25 ml. O similar produzido pela Fiocruz sai por R$ 8,00, a caixa de 500 comprimidos de 0,25 ml.
O ansiolítico (tranquilizante) Valium, da Roche, custa R$ 5,41 a unidade com 20 comprimidos de 10 mg. Se optar pelo rémedio similar, da União Química, vendido no mercado pelo nome do princípio ativo, Diazepan, o consumidor pagará R$ 4,57 pelos mesmos 20 comprimidos. Na Farmanguinhos, porém, o Diazepan é comercializado a R$ 2,80 a caixa com 200 comprimidos. Uma variação de 1.632% no preço final do produto. "Por mais que os laboratórios possam alegar que no preço de seus remédios estão embutidos custos de marketing e impostos recolhidos, acredito ainda que há uma gordura pesada no valor cobrado ao consumidor"
afirmou a química Eloan dos Santos Pinheiro, diretora do Farmanguinhos e autora do levantamento. "Até 300% de diferança no preço seria aceitável, mas 1.700% é muito alto".
Dos 68 medicamentos produzidos pela Fiocruz, pelo menos 40 são produtos disponíveis nas redes de farmácias brasileiras. Nenhum dos remédios da Farmanguinhos, porém, são vendidos comercialmente. Assim como a maioria dos laboratórios da rede pública do resto do País, eles são destinados unicamente para abastecer unidades saúde federais, estaduais, municipais, ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo Eloan, nos preços dos medicamentos fabricados pela Fiocruz não estão incluídos impostos - como o ICMS e a Cofins - que incidem sobre os laboratórios privados, mas a instituição recolhe para Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) a contribuição previdenciária de 290 dos seus 350 funcionários. "Assim como o setor privado, nós ainda compramos a matéria-prima no mercado internacional, através de licitação"
explica.
A discussão provocada pela nova regulamentação para a produção e comercialização de medicamentos genéricos, acredita Eloan, serviu para que o governo discuta fórmulas alternativas de oferecer remédios mais baratos à população carente. "Acho que é este o momento que temos para debater a criação de um programa nacional de farmácias populares", afirma. A química ressalta, porém, que a lei federal 9.787/99, que regulamentou os genéricos no País, é um avanço e poderá reduzir os preços dos medicamentos a longo prazo. Mas, ainda sim, os valores dos produtos farmacológicos, principalmente os de uso contínuo, como os hipertensivos, continuarão salgados para grande parte da população. Exemplo - A química cita como exemplo de sucesso o projeto do Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), que há 12 anos mantém um programa de farmácias populares. Segundo o diretor da instituição, Walter Farias, cerca de 600 pessoas são atendidas por dia nas três unidades do programa espalhadas pela região metropolitana de Recife. "Qualquer pessoa pode comprar nossos produtos e a economia no preço do produto é de 180%, em média", disse. Hoje, o Lafepe é responsável pelo abastecimento de medicamentos dos Estados do Norte e Nordeste.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Abifarma), José Eduardo Bandeira de Mello, não foi encontrado pela reportagem para comentar o levantamento da Farmanguinhos, mas, de acordo com a assessoria de Imprensa da entidade, os custos dos medicamentos produzidos pelos laboratórios privados encarecem por causa da pesquisa, compra de insumos e, principalmente, pela política de marketing que é realizada para viabilizar comercialmente o remédio.
Cada laboratório, disse, mantém um departamento especializado em visitas médicas, no qual funcionários são exclusivamente preparados para fazer visitas pessoais a médicos com a intenção de mostrar as vantagens de seus produtos em relação aos concorrentes.


