Rio, 8 (AE) - O dicionário de língua portuguesa no qual o filólogo, escritor, ex-ministro da Cultura e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) Antônio Houaiss vinha trabalhando desde 1986 será lançado na data prevista, em setembro do ano 2.000. O anúncio foi feito hoje, durante o enterro do acadêmico no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul. "Ele trabalhou no dicionário até o último momento", lembrou o sobrinho do escritor e diretor do Instituto de Lexicografia, Mauro Villar. "É um compromisso meu publicá-lo." O instituto disponibilizou verba de R$ 6 milhões para finalizar o projeto.
Villar, que trabalhava com Houaiss há 31 anos, contou que o dicionário está praticamente pronto. "Faltam menos de 10% dos verbetes", garantiu.
"O maior trabalho agora será o de leitura e releitura da obra para que não saia nada errado." O dicionário, que será lançado pela editora Objetiva, será um dos maiores de língua portuguesa já editados no mundo. Terá aproximadamente 300 mil palavras. Para se ter uma idéia do tamanho, o Aurélio, por exemplo, tem cerca da metade desse número de verbetes. "Era o grande projeto da vida dele", afirmou Villar. Em homenagem ao acadêmico, a obra será chamada Dicionário Houaiss.
Houaiss começou a trabalhar no dicionário em 1986. "Foram sete anos seguidos de trabalho interrompidos em 1992 por falta de verba", lembrou Villar. Durante cinco anos, o dicionário foi deixado de lado. Em 1997, no entanto, Houaiss criou o Instituto de Lexicografia e, no início deste ano, retomou as pesquisas. Outro grande projeto de Houaiss que será parcialmente realizado é o da Biblioteca de Filologia. Segundo o presidente da ABL, Arnaldo Niskier, a família do acadêmico irá doar para a academia os livros de filologia da biblioteca pessoal de Houaiss.
"Ele tem livros raríssimos", contou Niskier. "Vamos viabilizar um espaço na academia para abrigar as obras." Uma comissão formada pelo escritor e vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, partido ao qual Houaiss era filiado; pelo jurista e acadêmico Evandro Lins e Silva; e pelo editor Abraão Koogan irá selecionar os livros que farão parte da biblioteca. Niskier espera que o "impacto" da morte de Houaiss resulte na aprovação do acordo de unificação do português falado na comunidade lusófona - estagnado desde 1990, esperando a apreciação dos parlamentos dos sete países. "Fico chateado porque ele merecia ter visto esse acordo aprovado." Velório - O corpo de Antônio Houaiss foi velado na sede da ABL desde a tarde de domingo e enterrado no mausoléu da academia às 10h30 de hoje.
O presidente Fernando Henrique Cardoso enviou um telegrama à família do acadêmico, no qual lamentava sua morte. "Houaiss foi um pensador que lutou por um Brasil mais justo e solidário", escreveu o presidente. "O Brasil perde um de seus filhos mais ilustres e dignos." Para o jurista e também acadêmico Evandro Lins e Silva, o primeiro a chegar no velório, "a cultura do País perdeu um de seus maiores representantes". O ex-ministro da Economia Marcílio Marques Moreira, que conhecia Houaiss há 53 anos, também esteve no velório. "Perdemos um grande homem público, um filólogo incansável", disse. O escritor Josué Montello foi outro acadêmico a acompanhar o velório e o enterro.
"Houaiss era uma figura exponencial de sua geração, uma unanimidade." Antônio Houaiss ocupava a cadeira de número 17 da ABL desde 1971.

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