Brasília, 09 (AE) - O ministro da Justiça, José Carlos Dias, quer proibir, através de uma lei, os policiais de usarem armas de fogo em ações de repressão a manifestações populares em geral. Ele determinou ao secretário Nacional de Segurança, José Osvaldo Vieira, que prepare projeto regulamentando os equipamentos que podem ser empregados quando ocorrerem movimentos populares, como o dos trabalhadores da Novacap que acabou com o saldo de uma morte por causa de confronto com a Polícia Militar do Distrito Federal. O ministro também considera imprescindível a presença de um negociador nessas situações.
"Não pode ter arma de fogo, nem arma falsa com tiro de festim", condenou. Dias defendeu hoje, em entrevista, que a polícia enfrente manifestações populares reivindicatórias com jatos dágua e uso de gás lacrimogêneo ou paralisante. O ministro contou que, na época em que participava de movimentos estudantis, levou jatos dágua. À água era acrescentada uma substância conhecida popularmente como "sangue do diabo" que, ao ser lançada contra um tecido, deixava uma mancha vermelha, semelhante ao sangue. Mas minutos depois essa mancha começava a desaparecer.
Segundo ele, os estudantes defendiam-se jogando bolinhas de gude ou rolhas contra a cavalaria para que os animais caíssem. O ministro recorda que em 1968 houve muito movimento de rua em Paris e sem vítimas. "Não me lembro de ter havido uma morte", cita como exemplo de que há outras formas de se lidar com os manifestantes. Dias lembra que em Brasília mesmo, durante a passeata dos 100 mil este ano, a polícia comportou-se bem. "Assisti um grupo de provocadores jogando pedras nos policias e eles defendendo-se", descreveu. Aí os deputados José Genoíno e José Dirceu, ambos do PT de São Paulo, foram para lá defender os policiais. A liderança e a atuação da PM do Distrito Federal foi elogiada.
Liderança - A liderança em situação de potencial conflito é fundamental, na opinião de Dias. O próprio ministro, que na passeata dos 100 mil acompanhou de seu gabinete o que ocorria no gramado do Congresso, chegou a sugerir que policiais descessem dos cavalos para evitar acidentes, porque animais podem descontrolar-se no meio de multidão. "Daqui mesmo assisti a PMDF se conduzir de uma forma absolutamente exemplar", elogiou. Fogo - Segundo Dias, até o porte de armas com tiros de festim por policiais deve ser proibido em manifestação porque podem provocar reações de legítima defesa e colocar em risco a vida deles. "A proibição de armas de fogo é em defesa do próprio soldado", afirma o ministro. Autorizar os policiais a entrar nesse serviço com arma de fogo sob a condição de não utilizá-la também é uma atitude criticada por ele. "Na hora que ele recebe um insulto, um tapa ou uma pedrada, é exigir demais de quem está vivendo uma situação de estresse, para não dar um tiro", justificou.
Para Dias, um comandante não tem o direito de dizer "autorizo que entre com arma de fogo, mas não pode atirar". "Isso é brincadeira", critica o ministro. Dias contou que durante o período em que foi secretário de Justiça do Estado de São Paulo, no governo Franco Montoro, jamais permitiu que policiais entrassem armados na penitenciária. Nem quando ocorriam rebeliões de presos. O ministro não se esquece da "cara de raiva" dos policiais que um a um entregavam sua arma, na entrada do presídio.

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