Brasília, 10 (AE) - A divulgação de uma operação secreta de combate ao narcotráfico entre o Brasil e a Bolívia desencadeou nova crise no governo envolvendo a Secretaria Nacional Antidrogas e o Ministério da Justiça. A revelação, feita pelo secretário nacional Antidrogas, Walter Maierovitch, provocou o protesto do ministro José Carlos Dias, que expediu nota oficial condenando a atitude do secretário.
"O Ministério da Justiça não acredita na eficácia de qualquer operação destinada a reprimir o tráfico de drogas ou outras formas de crime organizado, que tenha seus objetivos, métodos e âmbito geográfico previamente divulgados", afirma a nota, num tom que pode acentuar a crise entre os dois órgãos. "Nesse sentido, o ministério lamenta o teor das declarações prestadas pelo secretário nacional Antidrogas."
A divulgação da nota "pegou de surpresa" o presidente Fernando Henrique Cardoso, que não gostou de ver, mais uma vez, uma operação de combate ao narcotráfico se transformar em nova disputa de poder. "As duas áreas que deveriam estar unidas para brigar contra o narcotráfico estão estão brigando entre si", disse um assessor do presidente, ao assegurar que Maierovitch pode, sim, falar sobre a política de combate ao narcotráfico, já que ele é o secretário. "O que ele não pode, e não fez, é dar ordens à PF", observou, ao explicar que não há disposição do presidente de retirá-lo do cargo.
"A ordem é baixar a poeira", avisou um interlocutor do presidente. Apesar de a disputa entre a Senad e a Justiça ser antiga, neste caso, há um ingrediente a mais: Maierovitc Na nota, o ministério afirma, ainda, que a atitude de Maierovitch jamais será adotada pela PF e volta a ressaltar que o combate ao tráfico é responsabilidade da instituição. "O Ministério da Justiça continuará a orientar o Departamento de Polícia Federal, orgão constitucionalmente responsável pela repressão ao tráfico de drogas, a se pautar pelo uso de procedimentos e técnicas que, amparadas na discrição e sigilo, permitam um efetivo combate a essa prática criminal."
"Não se solta uma nota dessas, sem consultar ou pelo menos informar o general, a quem o juiz (Walter Maierovitch) é subordinado", disse um outro auxiliar do presidente, referindo-se ao general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Cardoso está em Porto Seguro, na Bahia, participando da preparação do mega esquema de segurança que está sendo preparado para as comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. O general só volta a Brasília na quinta-feira, deu ordens ao Maierovitch para que fique calado e ele também não revidará as provocações do ministro da Justiça.
Maierovitch não quis responder à nota de José Carlos Dias e passou toda a tarde em seu gabinete, mantendo silêncio sobre o assunto. O general Alberto Cardoso viajou para a Bahia. No Palácio do Planalto, o clima era de tensão e de certeza que a crise entre o Ministério da Justiça e o Gabinete de Segurança Institucional tornou-se ainda mais forte depois das declarações de Maierovitch e da nota do ministério. O presidente Fernando Henrique Cardoso foi surpreendido pela iniciativa do ministro da Justiça e não tinha conhecimento da nota enviada à imprensa.
Provocado, o presidente limitou-se a repetir, por intermédio do seu porta-voz, pedido para que os órgãos de governo se entendam. "É preciso haver (harmonia) também entre os orgãos que trabalham no combate ao narcotráfico", afirmou o porta-voz. A mesma declaração foi feita por Fernando Henrique, há dois meses, quando a disputa entre Alberto Cardoso e José Carlos Dias recomeçou. Com novos personagens, a crise entre a secretaria - subordinada ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso - e o Ministério da Justiça se prolonga desde março do ano passado, quando foi substituído o então diretor-geral da Polícia Federal, Vicente Chelotti. Cardoso indicou o delegado João Batista Campelo para o cargo, confrontando indicação do então ministro da Justiça, Renan Calheiros, que defendeu o nome do delegado Vantuir Jacine, que ocupou interinamente a diretoria da PF.
Esta não é a primeira divergência em público, ao longo da gestão de José Carlos Dias, entre Maierovitch e a Polícia Federal, por causa de declarações do secretário a respeito do combate ao narcotráfico. Dias antes do início da chamada operação Mandacaru, que também seria executada sigilosamente no sertão nordestino, o secretário e o general Alberto Cardoso revelaram os detalhes da operação para a imprensa. Apesar de terem sido efetuadas prisões e eliminados pontos de plantio de maconha na região, os resultados foram considerados pela Polícia Federal como de pouco efeito.

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