Dias Gomes, o dramaturgo do imaginário popular
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 18 (AE) - Morreu Dias Gomes, o dramaturgo que preencheu de beatos, coronéis, lobisomens e pagadores de promessa a televisão, o teatro e o cinema no Brasil. Morreu em busca da cena, aquilo que motivou toda sua vida: tinha acabado de sair da estréia em São Paulo da montagem de "Madama Butterfly", dirigida por Carla Camuratti.
"Aqueles que se comovem com a ternura de "O Idiota", de Dostoievski; aqueles que sentem o desamparo de Woyzeck, de Buchner; aqueles que sabem como é difícil afirmar-se a pureza e a inocência num mundo dominado pelas maquinações da linguagem vão sofrer com o destino do Zé do Burro e aplaudir a profunda humanidade da peça "O Pagador de Promessas", escreveu no Suplemento Literário do "Estado", em 25 de julho de 1960, o crítico Sábato Magaldi, reconhecendo ali o nascimento de uma nova tradição dramatúrgica nacional.
"Esse caminho, iniciado em nosso moderno teatro por "Vestido de Noiva", continuou em "A Moratória", "A Compadecida" e "Eles Não Usam Black-Tie"; "O Pagador de Promessas" inscreve-se nessa linha e traz novas fontes à tradição teatral que vem se criando", escreveu Magaldi.
Em 1960, quando reabriu o Teatro Brasileiro de Comédia com "O Pagador de Promessas", o baiano Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) já vinha de uma longa batalha nos interstícios do rádio e do teatro. No fim de 1942, ele tinha montado com relativo sucesso a peça "Pé de Cabra", dirigida por Procópio Ferreira. Assinou com Procópio um contrato para escrever quatro peças por ano.
Algum tempo depois, Oduvaldo Viana, que estava fundando a Rádio Pan-Americana, em São Paulo, convidou Gomes, que se mudou para São Paulo em busca de estabilidade financeira. Foi em São Paulo que conheceria sua grande parceira e companheira, Janete Emmer (mais conhecida como Janete Clair), na época empregada de uma torrefadora de café.
Dias Gomes contava uma história engraçada sobre os anos 40. O dramaturgo foi convocado para o Exército para combater na 2ª Guerra, na Europa. Deu uma grande festa na noite anterior à apresentação pensando que iria morrer nos campos de batalha. Despediu-se dos amigos e das namoradas. No dia seguinte, um sargento disse que sua apresentação fôra um equívoco, já que não estava sendo convocado.
No ano passado, em sua autobiografia, "Apenas Um Subversivo" (Editora Bertrand Brasil), ele abriu o baú das recordações sobre a carreira, que incluiu a glória de ter visto "O Pagador de Promessas" ganhar a Palma de Ouro em Cannes, em 1962. Completou 30 anos de Rede Globo este ano.
Conta, no livro, que a novela "Quando os Homens Criam Asas" virou "Saramandaia" por imposição da censura. E que "A Invasão" - passada num subúrbio do Rio, com bicheiros como protagonistas - virou "Bandeira Dois" e acabou em musical, "O Rei de Ramos", com música de Chico Buarque. E que chegou a ser esmurrado pelo colega comunista, Mário Lago, por divergências políticas. "Até hoje, quando o encontro, lembro: você ainda me deve essa", contou, em entrevista recente ao "Estado".
E também lembrou que a expressão "Cinema Novo foi criada em sua casa, numa reunião onde estavam Leon Hirszman, Oduvaldo Viana Filho, Joaquim Pedro de Andrade e Anselmo Duarte. Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras e contou que temia que os acadêmicos lembrassem que, em uma de suas novelas, fez o personagem Odorico Paraguassu tomar posse na Academia de Sucupira montado em um cavalo.
"Vou tentar, mas não sei se gostaria de ser absolutamente verdadeiro, já que vivi apenas um terço, se muito, da vida que me estava destinada; os outros dois terços foram desvios por caminhos alheios, vidas que deveriam ser vividas por outras pessoas - é a impressão que tenho", escreveu em suas memórias. "Não digo isso para me eximir de culpa, assumo todos os erros; apenas quero ser honesto e preciso ao registrar a imprecisão da minha memória - e o caráter compulsivo e empulhador da minha imaginação".
Homem de esquerda, foi patrulhado pelos companheiros de convicções ideológicas por ter levado a televisão a sério, coisa que não era muito bem-vista pela intelectualidade dos anos 60. "Sonhávamos com platéias de operários, camponeses, favelados, misturados com a pequena burguesia", contou. "E não conseguimos." Bem, a verdade é que ele conseguiu.


