Sob aplausos e pétalas de rosas, o corpo do dramaturgo Alfredo Dias Gomes foi enterrado no início da tarde de ontem, no mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL), no cemitério São João Batista, no Rio. Cerca de 300 pessoas acompanharam o sepultamento.
Dias Gomes morreu em um acidente na madrugada de terça-feira, nos Jardins, em São Paulo. Ele e sua mulher, Maria Bernardete Lys, voltavam de táxi para o hotel. O motorista fez uma conversão proibida e o carro foi atingido por um ônibus. O dramaturgo morreu na hora. O velório, no Salão dos Poetas Românticos, na ABL, começou às 18 horas de anteontem. Mais de 600 pessoas passaram no local para despedir-se de Dias Gomes.
O corpo de Dias Gomes seguiu para o cemitério em carro aberto do Corpo de Bombeiros. Pessoas nas ruas e nas janelas dos prédios batiam palmas e acenavam com bandeiras brancas. No cemitério também foi muito aplaudido.
A mulher do dramaturgo, Maria Bernardete Lys chegou em uma ambulância, acompanhada pelas filhas Mayra, de 12 anos, e Luana, de 8 anos e pela filha de Dias Gomes e de Janete Clair, Denise Emmer.
O diretor Walter Avancini fez um discurso no mausoléu, lembrando que Gomes nasceu para lutar pela liberdade de expressão. ‘‘Vá com Deus, mas continue com a gente.’’ Antes os amigos lamentavam a perda. ‘‘Perco um irmão, com quem convivi por mais de 50 anos, foi uma perda grande para o povo: poucos foram tão amigos do povo quanto ele’’, disse Avancini.
O consultor da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, assinalou a extraordinária contribuição de Gomes. ‘‘Ele usou a cultura na TV sem preconceito’’, disse. Boni lembrou que o dramaturgo sabia lidar bem com a censura na época do regime militar. ‘‘Ele já esperava pela censura e lançava mão do humor para driblá-la.’’
O presidente da ABL, Arnaldo Niskier, lembrou em discurso o militante Dias Gomes e sua luta pela democracia. O padre Fernando Bastos de Ávila, que celebrou a missa de corpo presente, preferiu falar do fato de Gomes ser ateu. ‘‘Ele disse uma vez que Deus era um ótimo dramaturgo, mas um pouco repetitivo porque todas as suas histórias tinham o mesmo final: a morte’’, citou o padre, que chorou durante a missa. Padre Max disse: ‘‘Quem dera que todos os ateus fossem como ele’’.
‘‘Meu pai era ateu, mas eu acredito em Deus’’, disse o baterista Alfredo Dias Gomes, filho do dramaturgo, o único da família a dar declarações à imprensa. ‘‘Gosto de imaginar que minha mãe está lá esperando por ele.’’ A família, informou, não pretende processar o motorista que dirigia o táxi em que Gomes viajava.’’
O diretor de dramaturgia da TV Globo, Daniel Filho, chegou às 11 horas, e confessou que não conseguia falar do amigo e companheiro de trabalho, há mais de 40 anos, no passado. ‘‘Ainda é muito recente e não realizei a morte dele’’, justificou. A única novela de Dias Gomes que Daniel Filho dirigiu foi a primeira versão de ‘‘Roque Santeiro’’, censurada no dia da estréia, em 1975.

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