Dias é demitido após crítica e substituído por José Gregori
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Edson Luiz e Tania Monteiro 
Brasília, 11 (AE) - O ministro da justiça, José Carlos Dias, foi demitido hoje pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O motivo foi uma nota divulgada na segunda-feira pelo ministro, na qual criticava o secretário nacional Antidrogas, Walter Maierovitch, por ter anunciado previamente uma operação de combate ao narcotráfico. O secretário nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, é o novo ministro da Justiça. Dias foi o segundo titular da Pasta a cair por causa de desavenças com o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso. O primeiro foi Renan Calheiros, em maio do ano passado.
Na hora do almoço, o general Alberto Cardoso, esteve com o presidente Fernando Henrique Cardoso, durante uma hora no Palácio do Planalto. Pouco antes, José Carlos Dias condecorava militares com a medalha dos Direitos Humanos, mas se recusou a falar sobre a nota divulgada contra Maierovitch, homem de confiança do general. "Tudo que tinha para ser dito já está escrito", disse, acrescentando que depois do check-up a que havia sido submetido no fim de semana em São Paulo, recebeu ordens médicas para ficar longe de jornalistas e trabalhar menos.
A demissão de Dias começou a ser arquitetada no início da tarde, depois que ele se reuniu por 15 minutos com o diretor-geral da Polícia Federal, Agílio Monteiro Filho. No encontro, mostrou estatísticas do trabalho da PF no combate ao narcotráfico, ressaltando sempre que tudo fora feito em sigilo, uma alusão ao desentendimento que tinha tido com Maierovitch, que anunciou uma operação que o Brasil iria fazer em conjunto com a Bolívia.
"A visita é simbólica e vim cumprimentar a PF pelo trabalho que está sendo feito com cuidado e sigilo", afirmou o ex-ministro, ressaltando que uma de suas metas dentro do governo foi fortalecer a Polícia Federal. E este foi também o principal motivo de sua demissão, segundo fontes do Palácio do Planalto. Além de a visita à sede da PF ter sido considerada uma afronta, já que havia ordens para que o caso entre o ministério e Cardoso fosse encerrado, Dias estava dedicando-se quase que exclusivamente à corporação.
José carlos Dias afirmou que a entrevista de Maierovitch pareceu "insuportável", porque ele precisava apoiar a PF. "Naquele momento tinha que dar um basta", disse Dias, referindo-se à sua nota criticando o secretário. "É inadmissível que o secretário tente coordenar o trabalho da PF"
acrescentou o ex-ministro, ressaltando que não queria criar um constrangimento ao presidente e por isso decidiu pedir demissão.
Há alguns meses, Dias afirmou a amigos que se o presidente Fernando Henrique Cardoso não tivesse atendido à reivindicação dos policiais federais, colocaria seu cargo à disposição. O presidente deu uma gratificação referente a operações especiais para quase três mil agentes e delegados, aumentando os salários da instituição em 65%.
A escolha de Gregori foi feita depois da conversa de Cardoso com o presidente. O secretário nacional dos Direitos Humanos foi chamado ao gabinete do general, e pouco depois se reuniu com a primeira-dama, Ruth Cardoso, no próprio ministério da Justiça, onde os dois receberam o chanceler do Panamá. O diplomata saiu, mas Gregori e Ruth Cardoso permaneceram por mais de uma hora conversando. No final da tarde, o porta-voz do Palácio do Planalto, Georges Lamazire, anunciou oficialmente a saída de José Carlos Dias e a nomeação de Gregori, que não será interino, mas efetivo.
"Estou aceitando uma missão", afirmou Gregori, pouco antes de conversar com Dias, já demitido. "É uma missão que estou encarando com vontade", acrescentou Gregori, que já respondeu interinamente pelo ministério, na gestão de Nelson Jobim, de quem era chefe de gabinete.
Amigo pessoal do presidente Fernando Henrique Cardoso, o secretário é considerado um conciliador, mas pode ter restrições da área militar, com quem chegou a ter atritos no passado, quando era advogado de militantes políticos.
Dias foi o quarto ministro da Justiça de Fernando Henrique, e o segundo a cair por causa de atritos com o general Alberto Cardoso. Ele foi tachado dentro do Palácio do Planalto como o ministro que mais fez lobby para a PF. Antes de sair, ainda na segunda-feira, depois da divulgação da nota, Dias conversou com o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, que resolveu dar um basta na situação e intermediou a resolução do caso junto ao presidente Fernando Henrique, o que aconteceu na tarde de hoje.
Com a saída de Dias, o diretor-geral da PF, Monteiro Filho, também deverá pedir demissão. Hoje pela manhã, depois de saber da repercussão do caso, ele chegou a ligar para o Ministério da Justiça para saber se poderia entregar sua carta de demissão, acompanhando o ministro. Ele recebeu ordens para esperar o desenrolar dos acontecimentos.


