O que importa mais: as ideias ou as pessoas? A mente ou o coração? Esse me parece ser uma questão central, não apenas de nosso tempo, mas de todos os tempos. Episódios como a morte do neto de Lula e a facada em Bolsonaro revelam o que há de melhor e pior na alma humana.

Imagem ilustrativa da imagem Diante da morte de uma criança
| Foto: Shutterstock



Todos sabem o que penso de Lula e do que ele fez ao país. Mas, nesta hora, eu repito a oração que Dostoievski fez um dia: "Senhor, tornai-nos dignos do nosso sofrimento!"

A propósito, lembrei-me de um texto que escrevi há 12 anos, depois de receber a notícia da morte de uma criança, e que gostaria de compartilhar aqui com vocês sete:

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Quando uma criança morre, o universo não parece razoável. Se um dia eu tiver a chance, vou perguntar a Deus por que as crianças morrem.

A cidade fica em ruínas quando uma criança morre, ainda que todos os prédios estejam sólidos. Penso nas casas de madeira. Um estranho paralelismo se forma entre os pequenos novos que morrem e as velhas casas em despedida. Morrem da mesma forma, da noite para o dia. Enigmas da fragilidade.

Os sinais deveriam ficar todos vermelhos no dia em que uma criança morre. Nenhuma música deveria ser permitida, exceto o Agnus Dei de Beethoven na "Missa Solene". O silêncio teria que tomar conta dos vales, dos bares, das mansões, dos casebres, das escolas e das encruzilhadas. O mundo deveria ser uma pausa, no momento em que morre uma criança. O mundo deveria ser um pensamento. O mundo deveria ser a raiz quadrada de um número negativo. O mundo deveria parar para que todos os pais abraçassem seus filhos, para que todos os homens abraçassem suas mulheres, para que todos os cães olhassem o vazio das coisas, para que Deus emitisse uma palavra imperceptível aos ouvidos humanos - a única palavra que um dia irá nos consolar.

Todos os dias morrem crianças, e o mundo segue sua trajetória no espaço. Indiferente, a Terra dá uma volta em torno de si mesma. Ah! Como Plutão, a Terra deveria ser rebaixada a planeta-anão sempre que uma criança morre.

Os professores de lógica deveriam se reunir em assembleia quando uma criança morre - para refazer tudo que foi pensado até hoje. Camões deveria voltar à vida para nos ensinar um novo idioma. Einstein e Heisenberg deveriam refazer as contas quânticas do universo.

Morreu uma criança, meu Deus! Morreu faz poucas horas. Morreu faz poucos minutos. Morreu faz poucos séculos. Esse fato me arrebata, mas também me impele estranhamente à vida. Termino de escrever esta crônica, enquanto começa março, mês das chuvas que encerram o verão. Nada é por acaso: a chuva ensina que todos nós somos crianças que não morreram.

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