Rio, 08 (AE) - Cerca de 100 portadores do vírus HIV, diabéticos e hemofílicos fizeram hoje à tarde um protesto contra a falta de verbas para a compra de medicamentos importados em frente a sede do Ministério da Fazenda, no Rio. Eles fizeram um enterro simbólico do tratamento anti-aids no Brasil. O Ministério da Saúde só tem estoque de remédios para distribuição gratuita até meados de outubro, segundo os manifestantes.
O diretor do Grupo Pela Vidda, Ézio Távora Filho, teme que não haja tempo hábil de o governo liberar recursos, importar e distribuir o medicamento em menos de um mês. "O ministro José Serra pediu, em março, suplementação orçamentária de R$ 584 milhões por causa das perdas com a variação cambial, mas a verba não foi liberada pelo Ministério da Fazenda (MF)", afirmou. "A situação é muito grave".
A assessoria do Ministério da Fazenda informou que os recursos deveriam ser autorizados pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, mas a assessoria do ministro Martus Tavares informou que ele estava reunido com o presidente Fernando Henrique Cardoso e não poderia comentar o assunto.
Cortejo - O cortejo fúnebre saiu da esquina da Rua 7 de Setembro com Avenida Rio Branco, no Centro, seguido por viúvas - mulheres com véu e lágrimas negras pintadas no rosto- , a Morte e pessoas vestidas de preto, ao som de batidas de surdo. O caixão de indigente foi carregado por "homens do Governo", que acenavam para os pedestres. Cartazes e faixas anunciavam a morte da saúde no Brasil.
Pelo menos 170 mil pessoas podem ser prejudicadas pela falta de medicamentos - 70 mil são pacientes soropositivos, avaliaram os manifestantes. Doentes com aids que usam o coquetel antiviral não podem interromper o tratamento: há o risco de o vírus criar resistência e o medicamento não fazer efeito quando voltar a ser usado.
O administrador Otávio Valente Júnior, de 38 anos, toma o coquetel há dois anos e terá de desembolsar R$ 1,5 mensais para adquirir os remédios, caso o Ministério da Saúde deixe de fazer a distribuição. Ele teve tuberculose no fim de 1996, quando começou a usar o coquetel e nunca mais teve as chamadas doenças oportunistas. "As mortes por aids no Brasil caíram 40% desde que o Ministério da Saúde passou a distribuir o coquetel e isso tudo corre o risco de se perder", disse.

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