Emerson Cervi
De Curitiba
Hoje, Dia Mundial da Água, é recomendado para lembrar que 97% das águas do planeta são impróprias para o consumo humano por formarem os oceanos. Dois terços dos outros 3% estão nas gelerias ou em grandes profundidades no subsolo. Apenas 0,7% forma lagos e rios, que são usados para o abastecimento das cidades.
Mas esses números não são suficientes para mostrar a dimensão do problema do déficit de água a médio prazo. Além de estar à disposição na natureza, a água tem que oferecer condições mínimas de utilização. Quando se leva em conta os efeitos da poluição dos rios, cresce ainda mais a possibilidade de falta de água em várias regiões do planeta nas próximas décadas.
O caso da Região Metropolitana de Curitiba é típico. A água produzida pela Sanepar está no limite da demanda. Enquanto o consumo é de 6 metros cúbicos por segundo, a produção está em 6,4 metros cúbicos por segundo. A falta de investimentos nas últimas décadas no sistema de captação e distribuição é apenas um dos fatores que levaram a este limite.
Outros são a baixa cobertura histórica da rede coletora e tratamento de esgoto domiciliar e a ocupação indevida de áreas de mananciais. Com isso, cresce a poluição ambiental dos rios e os custos para o tratamento da água.
Para o presidente da Associação Paranaense de Preservação de Mananciais do Alto Iguaçu e Serra do Mar (Appam), Haroldo Osmar de Paula Júnior, grande parte dos rios da região metropolitana estão se transformando em ‘‘cloacas urbanas’’. ‘‘A forma de ocupação do solo, falta de infra-estrutura no tratamento do esgoto e baixa fiscalização pelas prefeituras matou muitos rios’’, afirma. ‘‘Com o tempo, a Sanepar teve que ir ‘desligando’ (deixar de usar a fonte para fornecimento à população) os rios pela poluição.’’
A alternativa tem sido buscar fontes de água não poluídas mais distantes do perímetro urbano. Mas isto encarece o tratamento. ‘‘Outra forma de resolver o problema seria com investimentos em meio ambiente e controle da ocupação de áreas de mananciais ou fundos de vale para que não haja ocupação das margens dos rios’’, opina.
O último rio da região metropolitana que a Sanepar ‘‘desligou’’ do fornecimento por poluição foi o Atuba, no final dos anos 70. Passadas duas décadas, o rio continua cada vez mais poluído por esgoto domiciliar e metais pesados. ‘‘Por um lado, famílias de baixa renda invadem as margens dos rios e despejam esgoto direto, por outro, grandes empresas não tratam seus resíduos antes de liberá-los ao meio ambiente.’’
Agora, há setores da empresa defendendo o ‘‘desligamento’’ do Rio Palmital. ‘‘Somos contra essa medida porque temos condições de provar que há possibilidade de se recuperar o rio, desde que haja um trabalho de conscientização da população do município de Colombo, onde está sua nascente.’’Abastecimento é feito com apenas 0,7% das águas existentes. Curitiba é exemplo típico: água distribuída pela Sanepar está no limite da demanda
José SuassunaSob riscoRio que corta a favela do Parolim, em Curitiba: poluição é a principal ameaça ao estoque de água potável

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