Rio- Os 250 voluntários que subiram ontem a Favela da Rocinha para participar do projeto Dia do Carinho esbarraram em críticas e reclamações de moradores. Muitos classificaram a iniciativa como ''hipócrita'' e ''vaga''. Enquanto os voluntários subiam a favela, uma troca de tiros entre policiais e traficantes deixou um criminoso morto e quatro policiais feridos - um deles acertou o próprio pé ao manusear o fuzil apreendido.
O Dia do Carinho reuniu socialites como Narcisa Tamborindeguy, Lilibeth Monteiro de Carvalho, o marido dela, o modelo Walter Rosa, Gisela Amaral (uma das idealizadoras), a produtora Flora Gil, mulher do ministro da Cultura, Gilberto Gil, além de moradores de bairros vizinhos à Rocinha. A idéia era transmitir palavras de afeto e solidariedade aos moradores, que há duas semanas vivem uma guerra promovida por traficantes rivais.
''Dessa ferida já saiu pus várias vezes. Eles colocam curativos, mas ela abre de novo. Só abraço não adianta. Estado, município e União têm de cumprir seus papéis'', afirmou o diretor de teatro Aurélio Mesquita, de 38 anos, há 20 morador da Rocinha. Ele e o grupo Roça Caça Cultura maquiaram-se como palhaços para receber os voluntários do Dia do Carinho. ''Estamos entrando na onda deles, também vamos dar abraços, mas espero que percebam nossa ironia.''
Outros moradores mostraram cartazes em que pediam emprego e saneamento básico. ''Esse movimento é vago. Aceitamos todas as ajudas, mas isso não vai resolver nossos problemas. Precisamos de propostas concretas. Carinho sem o básico não tem efeito moral'', afirmou Carlos Alberto Carvalho, de 44 anos, que levava o cartaz ''Carinho é emprego e desenvolvimento.''
O diretor do Viva Rio, Rubem César Fernandes, reconhece que enfrentou alguma hostilidade. ''Esse é um ambiente de muita tensão. Você fica sempre entre o sublime e o ridículo'', afirmou. Fernandes disse que ontem foi o momento de transmitir solidariedade aos moradores.
Os voluntários passaram a manhã distribuindo panfletos, rosas brancas de papel, biscoitos e brinquedos para as crianças. Poucos cumpriram as recomendações recebidas na sede da ong Viva Rio, pela manhã: ''Olhar no olho, apertar a mão, abraçar, ouvir o morador''.

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