Distúrbios foram provocados para dispersar o cerco policial
Distúrbios foram provocados para dispersar o cerco policial | Foto: Fábio Motta/Estadão Conteúdo



Uma guerra entre facções de traficantes na Cidade Alta, em Cordovil, zona norte da capital fluminense, terminou na terça-feira (2) com pelo menos oito ônibus e dois caminhões queimados, 45 pessoas presas e seis feridas, entre as quais três policiais, que estão fora de perigo.

Ao todo, 32 fuzis, granadas e pistolas foram apreendidas. Mais de 3 mil crianças ficaram sem aula na região, segundo as secretarias estadual e municipal de Educação. O major Ivan Blaz, coordenador de Comunicação da Polícia Militar, informou que, por volta das 3 horas da madrugada, moradores de Cordovil acionaram a corporação por telefone informando que uma facção rival da que ocupa a comunidade de Cidade Alta tentava assumir o controle territorial da área.

"Fizemos um cerco e, uma vez cercados, os criminosos invasores acionaram moradores de comunidades que sofrem influência desta facção para promover distúrbios e caos urbano na cidade com a finalidade de dispersar o policiamento no cerco e promover oportunidade de fuga", disse Blaz.

Ainda segundo o major, o número de presos e de armas apreendidas prova que a ação policial teve êxito. No entanto, Blaz ressaltou que os números mostram uma realidade cruel no estado. "Somos um dos principais destinos do tráfico internacional de armas, o que expõe a fragilidade de nossas fronteiras", disse o major. "Isso força a Polícia Militar daqui a enfrentar um mal que polícia nenhuma enfrenta no mundo. Aqui, o policial já está acostumado a ouvir rajadas de fuzil."

De acordo com a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), 50 ônibus já foram incendiados em 2017, superando os números de 2016 (43). Por esse tipo de incêndio não garantir seguro, o custo estimado para a reposição da frota incendiada chegou a R$ 22 milhões este ano, segundo a Fetranspor.

A entidade informou ainda que, devido à crise econômica e ao desequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão, não há garantia para a compra de novos veículos, que podem demorar até um ano para entrar em circulação. Em seis meses, somente no Rio, cerca de 70 mil passageiros deixam de ser transportados em cada veículo, finalizou a Fetranspor em nota.

CRIMINALIDADE
Para a coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Universidade Cândido Mendes, Silvia Ramos, a onda de violência no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense é resultado do processo de aumento de indicadores de criminalidade que o estado vem vivendo desde o ano passado, combinado com ausência de respostas do setor de segurança pública.

Segundo Sílvia, os criminosos percebem que existe um vácuo na segurança, seja no projeto das unidades de polícia pacificadora (UPPs), diretamente nas favelas, seja praticando assaltos e roubos em ruas e vias da cidade. Com isso, eles "ganham território". Silvia Ramos argumentou que, na medida em que o setor de segurança responde localmente, trocando tiros com os criminosos, e não com políticas de planejamento e de inteligência, desarticulando quadrilhas, "esse resultado é uma espécie de equação matemática".

Se há retomada das ruas por criminosos e ausência de políticas de segurança, o resultado pode ser o que a população do Rio de Janeiro viu nesta terça-feira, enfatizou. Na ocasião, Silvia disse que houve um confronto local com a polícia e os bandidos responderam com mais agressividade. "É preciso que o setor de segurança responda à violência com políticas de inteligência e com planejamento, "e não só resolvendo um incêndio a cada dia", acrescentou.

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